terça-feira, 28 de julho de 2009

Leituras indicadas a um bom soldado (nº 3) - "Ortodoxia", de G.K.Chesterton

Eu noticiei há alguns dias no Direto da Sacristia que será aberto o processo de beatificação do grande apologista e escritor inglês, G. K. Chesterton. A notícia repercurtiu imensamente, nos mais diversos meios, dada a extensão do pensamento de Chesterton, sua atualidade, seu grande serviço à Igreja e, principalmente, a paixão que o apologista nos provoca.

G.K. Chesterton foi, sem dúvida, uma das maiores mentes do século passado. Alguns o classificavam como um "Padre da Igreja" dos tempos modernos. Ninguém menos que o Papa Pio XI chegou a ser seu fã.

A atuação de Chesterton foi vasta e surpreendente. Foi um dos viu com pioneirismo como o homem do século XX gosta de romances e mistério, ingressando num apostolado de defesa da Fé Católica por meio de romances policiais: seu personagem, o Padre Brown, sacerdote e detetive, é hoje conhecido em todo o mundo. Atuou ainda como Teólogo, Historiador e Filósofo. Etienne Gilson, respeitável filósofo tomista, um dos maiores seguidores e estudiosos do Doutor Angélico, disse que, mesmo tendo dedicado uma vida inteira à São Tomás de Aquino, nunca escreveria uma obra tão clara sobre ele como o "Santo Tomás de Aquino" que Chesterton escreveu dando apenas uma olhadinha em uma dúzia de obras (sim! isto mesmo! pediu apenas uma dúzia de obras e deu uma olhada nelas!). "Chesterton é desesperador. Durante toda a minha vida estudei Santo Tomás e nunca poderia ter escrito um livro como o seu. Só um gênio é capaz de tal façanha", disse Gilson.

Chesterton era capaz de se embater epopeicamente com qualquer um que negasse a existência de Deus e a necessidade da religião cristã ao homem, e fazia tudo isso com muito bom humor, levando o auditório aos risos e o herege à vergonha. Mas depois convidava o adversário para comemorar a sua própria derrota no pub mais próximo, acompanhados de charutos e cerveja.

O livro mais conhecido de Chesterton é a sua auto-biografia espiritual, "Ortodoxia". E é ele que indicamos hoje. A Editora Mundo Cristão - curiosamente, uma Editora protestante - publicou em 2008 uma Edição comemorativa do centenário da obra. Segue a referência completa: CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

Chesterton relata neste livro sua busca pela verdade, procura que, passando de erro em erro (ou acerto em acerto), levou-o à Fé Católica, que teve até o fim de sua vida como a única Fé verdadeira e capaz de dar respostas às questões mais profundas do homem. O britânico afirma que tentou construir uma nova heresia a partir de si próprio, mas quando deu-lhe os últimos retoques, viu que era apenas a ortodoxia, e a ortodoxia católica!
"O autor tem o propósito de tentar explicar não se a fé cristã pode ser abraçada, mas como ele pessoalmente passou a abracá-la. [...] [Este livro] Trata primeiro de todas as solidárias e sinceras especulações pessoais do autor e depois do dramático estilo em que elas são de súbito respondidas a contento pela teologia cristã. O autor vê isso como algo que leva a um credo convincente. Mas se não chegar a tanto, trata-se no mínimo de uma repetida e surpreendente coincidência", afirma em seu Prefácio (p.15).
Em "Ortodoxia", Chesterton combate com maestria as modernas heresias: o determinismo, o evolucionismo radical, o relativismo, o materialismo... numa palavra, para resumir todos os "ismos": o modernismo.

Chesterton não aceita a idéia tão em vigor nos círculos católicos de hoje - imbuídos de modernismo - de que a ortodoxia é enfadonha, chata, um fardo; seria preciso, para os modernistas de hoje, sempre estar evoluindo e se "renovando"; a Igreja do futuro é extaamente como ela não é hoje (e poderia vir, para eles, a não ser nada também). Vemos isso nas Missas, onde o que vale é mudar, mudar e mudar, mas nunca obedecer, obedecer, obedecer; vemos nos sacerdotes e Bispos que acusam os católicos ortodoxos de "tradicionalismo estéril" ou "conservadorismo". Chesterton lhes diria que estão errados.
"Essa é a emocionante aventura da Ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de falar da ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante como a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escutlura e a precisa da aritmética" (p.167).
Contra estes, que tolamente afirmam ser a ortodoxia enfadonha e chata, Chesterton ensina-nos o real valor da fidelidade à Doutrina perene da Igreja, bimilenar e sempre, sempre atual. Chesterton os mostra o verdadeiro tradicionalismo. E como ele é estimulante! Como é emocionante ser tradicional e caminhar na rota contrária dos modismos e imbecilidades do mundo! Porque seguir na direção da moda é fácil demais; ir contra a corrente é que é difícil, e por isso mesmo emocionante.
"A Igreja ortodoxa nunca tomou a rota fácil ou aceitou as convenções; a Igreja ortodoxa nunca foi respeitável. Teria sido mais fácil ter aceitado o poder terreno dos arianos. Teria sido mais fácil, durante ocalvinista século XVII, cair no abismo infinito da predestinação. É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outro espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo - isso teria sido de fato simples. É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonos heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé" (p.168).
Palavras de peso para os Bispos deste Brasil, para os sacerdotes modernistas, adeptos de modismos passageiros e estéreis, para os católicos de CEB's ou de lágrimas sentimentalistas durante shows de padres cantores.

Leiam Chesterton, senhores, e aprendam a ser realmente emocionantes - sendo tradicionais!

domingo, 26 de julho de 2009

Contra Gripe Suína... Comunhão na mão??

Alguns Bispos e Padres têm proibido a comunhão na boca como medida de prevenção ao avanço da gripe suína: para evitar que a saliva de uma pessoa passe à de outra pela mão do Padre. A medida é surreal para quem conhece a disciplina da Igreja: a Igreja ordena que o Padre não toque com os dedos o lábio dos fiéis; o fiel abre a boca e põe um pouco da língua para fora; o Padre, segurando a hóstia santa com as pontas dos dedos por uma extremidade, põe a extremidade contrária sobre a língua do fiel; assim a hóstia logo se gruda à umidade da língua do fiel, e este pode levá-la à boca; nada de toque nos lábios ou na língua.

Como muito bem explicou o Jorge Ferraz no Deus lo vult!, o que deveria ser proibido para evitar o contágio pela gripe suína é a comunhão na mão, não na boca. Trancevemos um trecho de seu texto:
"Vejamos: a pessoa chega na igreja, possivelmente de ônibus. Senta-se nos bancos onde outras pessoas já sentaram, apoiando as mãos no banco da frente. Pega em jornaizinhos que foram utilizados anteriormente por outras pessoas. Pega em dinheiro na hora do ofertório. Aperta as mãos de cinco ou seis pessoas durante o 'abraço da paz'. Dá as mãos durante o pai-nosso. Depois de tudo isso, sem lavar as mãos, ela vai receber a Eucaristia e, pegando-A com as mãos sujas, leva-a à boca! É muito mais razoável que o sacerdote, com as mãos lavadas antes da Santa Missa e durante o ofertório, coloque diretamente a hóstia sagrada na boca dos comungantes, bastando que ele distribua a comunhão como deve fazer, isto é, sem tocar nos lábios dos fiéis."
Fala-se que os Bispos proibiram também o "abraço da paz" e o dar as mãos no momento do Pater Noster - o que é excelente, dado que estas coisas não eram, em verdade, liturgicamente necessárias; e, no caso do dar as mãos no Pater Noster, é até errado -, mas isso não evita que os fiéis estejam com as mãos sujas de tocarem nos bancos dos ônibus em que vieram, de seus carros, nas paredes e nos bancos da igreja, etc. Ou seja, a mão do fiel continua suja, mesmo que se evite o "abraço da paz" e as mãos dadas no Pater Noster.

As únicas mãos que estão limpas - e continuarão limpas, se o procedimento for feito corretamente - são as do sacerdote, lavadas por água pura no momento do Lavabo. E, se o sacerdote der a comunhão na boca como manda a Igreja - isto é, sem tocar nos lábios do fiel, com cuidado e precaução -, o fiel não tocará com suas mãos sujas - ou "infectadas", se já houver vírus por aí - na Sagrada Comunhão, que levará à boca.

É uma medida profilática muito mais razoável e segura, além de que comporta um grandioso bem espiritual para o fiel: fica mais ressaltada a sacralidade da Comunhão Eucarística; o fiel recebe a Comunhão da Igreja, do sacerdote, e não simplesmente a pega com suas mãos.

No Vaticano, talvez com bem maior risco de gripe suína do que por aqui - devido ao constante fluxo de peregrinos e turistas -, não me consta que nada tenha mudado sobre a entrega da Comunhão. Ao contrário, pelo que sei, o Santo Padre continua entregando na boca e de joelhos em suas Missas. Não houve mudança. Por que aqui deveria haver?

Além de não ser uma medida profilática adequada proibir a comunhão na boca, isso só servirá para propagar aquela "lenda negra" que os modernistas inimigos da Eucaristia inventaram, sobre a comunhão na boca não ser higiência; as pessoas, assim, vão tender a evitá-la, mesmo depois de passado o surto de gripe suína.

Faço um apelo aos Senhores Bispos e Padres, para que não usem este momento como pretexto para destruir ou abalar esta piedosa tradição cristã, que tanto bem faz às almas e que expressa bem melhor a sacralidade do mistério eucarístico. Além de que esta medida é canonicamente irregular, pois ninguém pode negar comunhão a um fiel que a queira receber na boca. Faço também um apelo aos fiéis, no sentido de orientarem seus Pastores e Sacerdotes sobre a medida profilática mais adequada - i. e., probir a comunhão na mão.

Senhores Bispos, não frustrem as intenções do Santo Padre de restaurar esse digno esse digno e piedoso costume. Ele já enfrenta inimigos demais fora da Igreja. Não preciso de adversários também dentro dela.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Cartas a um Bispo - Sobre a Santa Missa

Nota prévia: Publico a seguir, passados vários meses, duas cartas que escrevi a meu Bispo Diocesano, Dom Jaime Vieira Rocha, Bispo da Diocese de Campina Grande (PB), sobre a questão da Liturgia e da Santa Missa em nossa cidade. A quem interesse argumentos em favor de uma Liturgia mais digna e respeitosa, esta publicação pode ser útil. Nenhuma das seguintes cartas foi respondida por Sua Excelência, o Bispo Dom Jaime Vieira Rocha. Em Cristo, T.F.S.

***
Primeira Carta - 7 de Fevereiro de 2009

Excelentíssimo Dom Jaime Vieira Rocha,

Pax et Bonum!

Sua bênção, Excelência!

Escrevo esta missiva a Vsª Excia. para tratar de tema de crucial importância para nossa Diocese: a Santa Missa.

Não é segredo para Vsª Excia. a minha sincera devoção à Santa Missa codificada após o Concílio de Trento, a chamada Missa Tridentina. Esta devoção, como Vsª Excia. bem sabe, não deriva de um espírito de separação para com Roma ou por mero saudosismo; ao contrário, como já tivemos oportunidade de conversar em uma das Audiências que Vsª Excia. me concedeu, sou um fiel defensor e seguidor do Concílio Vaticano II e também da Missa Nova de Paulo VI, da qual participo e até acolito.

O Papa Bento XVI, seguindo o seu Predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, liberou universalmente a Missa Tridentina, e assim qualquer sacerdote pode celebrar livremente a Missa Tridentina sem que para isto necessite de alguma permissão da Sé Apostólica ou do Ordinário local (art. 2º do Motu Proprio Summorum Pontificum). Pelo mesmo Motu Proprio, o Santo Padre dá igual cidadania na Igreja para a Missa Tridentina e para a Missa Nova, não sendo uma menos católica ou menos santa que a outra (art. 1º). De tal maneira que a existência, numa Diocese e em suas paróquias, das duas Formas do Rito Romano – ou seja, da Missa Tridentina e da Missa Nova – não só é desejável como até necessária, para que os fiéis possam ter direito a conhecer todo o patrimônio litúrgico da Santa Igreja, tão rico e belo, e assim amem mais, por conhecer mais, a Liturgia da Santa Igreja.

Entretanto, passados quase 2 anos da promulgação do Motu Proprio Summorum Pontificum, não vejo em Campina Grande nenhuma iniciativa no sentido de dar aos fiéis o direito de conhecerem e participarem da Santa Missa Tridentina. Ao contrário, o Motu Proprio parece ter caído em esquecimento nesta Diocese, como também a necessidade dos fiéis de também assistirem à Missa Tridentina.

Seguindo o roteiro estabelecido pelo próprio Documento do Papa, deveria escrever ao meu pároco ou a algum Padre da Diocese para que garanta aos fiéis a Santa Missa Tridentina; entretanto, soube por meio de amigos que tentativas neste sentido foram frustradas, pois os sacerdotes vêm rejeitando estes pedidos, como se a Santa Missa Tridentina fosse uma aberração obsoleta e indesejável, como se não fosse católica, e como se nós, os fiéis que as pedimos, tivéssemos algum problema ou não estivéssemos em comunhão com a Igreja e com o Papa – nada mais falso, dado que a Santa Missa Tridentina possui, sim, cidadania na Igreja, conforme muitas vezes expressaram os Papas João Paulo II e Bento XVI, e os fiéis apegados a esta Liturgia são tão católicos quanto quaisquer outros.

Não havendo como os sacerdotes atenderem aos fiéis que pedem a Santa Missa Tridentina, o Motu Proprio nos indica pedirmos ao Ordinário local uma solução para o pedido. É nesta fase que estou, e por isso escrevo a Vsª Excia.

Excelência, são muitos os fiéis apegados à Missa Tridentina nesta cidade. Eles são em sua maioria jovens – como eu – que descobriram as belezas da Forma Tradicional do Rito Romano pela Internet ou por cidades vizinhas que já possuem a Santa Missa Tridentina. Temos também adultos e idosos entre nós. Os fiéis apegados à Santa Missa Tridentina não são só da cidade de campina Grande – embora aqui haja um grande número – mas também de Boqueirão, Esperança, e, ao que me consta, de outras áreas circunvizinhas.

Como Pastor nosso, Vsª Excia. foi incumbido pela Igreja e pelo próprio Cristo de estar atento e procurar sanar as necessidades espirituais dos fiéis, conforme ensina o Concílio Vaticano II:

"Pelo que os Apóstolos trataram de estabelecer sucessores, nesta sociedade hierarquicamente constituída. Assim, não só tiveram vários auxiliares no ministério mas, para que a missão que lhes fora entregue se continuasse após a sua morte, confiaram a seus imediatos colaboradores, como em testamento, o encargo de completarem e confirmarem a obra começada por eles, recomendando-lhes que velassem por todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo os restabelecera para apascentarem a Igreja de Deus (cfr. Act. 20, 28)" (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Dogm. Lumen Gentium, n.20).

"Cada Bispo, a quem é confiada uma igreja particular, apascenta em nome do Senhor as suas ovelhas, sob a autoridade do Sumo Pontífice, como próprio, ordinário e imediato pastor, exercendo em favor das mesmas o múnus de ensinar, santificar e governar" (Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto Christus Dominus, n.11).

"No exercício do seu múnus de pais e pastores, comportem-se os Bispos no meio dos seus como quem serve, como bons pastores que conhecem as suas ovelhas e por elas são conhecidos como verdadeiros pais que se distinguem pelo espírito de amor e de solicitude para com todos, de modo que todos se submetam facilmente à sua autoridade recebida de Deus. Reúnam à sua volta a família inteira da sua grei e formem-na de tal modo que todos, conscientes dos seus deveres, vivam e operem em comunhão de caridade" (Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto Christus Dominus, n.16).

Ora, nós somos também ovelhas confiadas a vós. Somos também filhos vossos. Todos os fiéis tradicionais desta Diocese são também vossa família, fazem parte dela igualmente, não estão fora dela, mas inserido na grande família, da qual vós sois o Pastor. E estes filhos vossos possuem também suas necessidades espirituais, e de todas a mais premente e importante é a necessidade da Santa Missa Tridentina, à qual somos apegados não por mero saudosismo ou por sentimento de ódio, mas por amor desta Liturgia que por tantos séculos alimentou à Igreja, e pela qual nós mesmos nos sentimos alimentados e nutridos espiritualmente da melhor forma. E este nosso desejo é legítimo, é lícito, não é cismático nem anti-cristão, mas um sentimento perfeitamente católico e endossado pela Santa Igreja e por Sua Santidade, o Papa.

Não vejo, portanto, motivo plausível para que não se implante, em atendimento a uma necessidade espiritual legítima de muitos fiéis – entre os quais, eu mesmo –, a Missa Tridentina nesta Diocese.

Alega-se que é uma Missa antiga, obsoleta, sem razão de ser. Ora, na Igreja temos coisas velhas e novas, e tanto umas como outras são santas e católicas. O Santo Terço tem mais de quase 1000 anos de idade, e até hoje é rezado pelos católicos, estimulado pelos Papas e pedido pela Virgem Maria. pouco importa, na Igreja, se uma coisa é antiga ou nova: o que é realmente importante é se é santa e católica; e isso sabemos que a Missa Tridentina é, pois possui cidadania plena na Igreja, e santificou muitos homens e mulheres, como São João Maria Vianney, Santo Inácio de Loyola, Santo Afonso Maria de Ligório, Santa Teresa de Jesus, Santa Teresa do Lisieux, São Josemaría Escrivá... só para citar alguns santos que durante toda sua vida comungaram das delícias desta belíssimas liturgia. Portanto, a alegação de que a Missa Tridentina é antiga e por isso não possui razão de ser é infundada. Não devemos estar fechados numa mentalidade farisaica, mas, ao contrário, ser como "o escriba instruído nas coisas do Reino dos céus (...) que tira de seu tesouro coisas novas e velhas" (Mateus 13, 52).

Alega-se que esta Missa é contrária ao Concílio Vaticano II. Nada mais falso. Basta observar que durante todo o Concílio Vaticano II, em todas as suas sessões e todos os dias, era celebrada não uma outra Missa, mas a Missa Tridentina: como duas coisas contrárias poderiam conviver juntas? Se o Concílio Vaticano II e a Missa Tridentina fossem mesmo opostos e imiscíveis, como puderam conviver juntos durante os 3 anos de celebração do Concílio Ecumênico? O Papa Bento XVI desmentiu esta alegação em sua Carta aos Bispos acompanhando o Motu Proprio Summorum Pontificum, onde afirma que "tal receio não tem fundamento".

Alega-se também que o ethos da Missa Tridentina não está conforme o Concílio Vaticano II. Fala-se do latim na Missa Tridentina e da posição do Padre "versus Deum", como se o Concílio Vaticano II tivesse abolido ambas as coisas. Tal pensamento advém de uma visão distorcida do Concílio Vaticano II, pois este Concílio Ecumênico nem aboliu o latim nem a posição "versus Deum". O latim permanece como língua própria do Rito Romano e a posição "versus Deum" continua sendo a posição própria do celebrante da Missa. E isto mesmo na Missa Nova de Paulo VI, que é, também ela, em latim e versus Deum: como dizer, pois, que o latim na Missa e a posição versus Deum contrariam o Concílio Vaticano II, se mesmo na Missa Nova permanece o latim e essa posição?

Alegar que a Missa Tridentina é contrária ao Vaticano II por ser em latim revela um completo desconhecimento deste Concílio Ecumênico. É falar do que não se sabe, justificar algo em nome do Concílio sem sequer conhecer o Concílio. Ora, o próprio Concílio Vaticano II estabelece o latim como língua própria da Liturgia. Está no texto da Constituição Sacrosanctum Concilium, Sobre a Liturgia:

"Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos" (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Liturg. Sacrosanctum Concilium, n.36, §1).

"Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da Missa que lhes competem" (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Liturg. Sacrosanctum Concilium, n.54).

"Conclua-se o mais depressa possível a obra, felizmente iniciada, da revisão do Saltério, procurando respeitar a língua latina cristã, o seu uso litúrgico mesmo no canto, e toda a tradição da Igreja latina" (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Liturg. Sacrosanctum Concilium, n. 91).

"Conforme à tradição secular do rito latino, a língua a usar no Ofício divino é o latim" (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Liturg. Sacrosanctum Concilium, n. 101, §1).

Ora, todos estes trechos foram retirados da Constituição sobre a Liturgia do Concílio Vaticano II, o que mostra que o latim na Missa não é "contrário" ao Concílio, como erroneamente pregam alguns, sem sequer conhecerem o Vaticano II.

Sobre a posição versus Deum do sacerdote, o Concílio Vaticano II sequer fala em modificá-la, o que fez a Sagrada Congregação para o Culto Divino concluir, já em 1993, em notificação aprovada pelo Papa João Paulo II, que a posição versus Deum permanece como posição própria do celebrante da Missa, mesmo na Missa Nova.

Portanto, estas alegações contrárias à Missa Tridentina são completamente infundadas, com base no próprio Concílio Vaticano II e no Magistério dos Papas João Paulo II e Bento XVI.

O receio do Clero de que "o fiel não entenda a Missa porque ela é em latim" também é infundado, pois a Igreja há muito estimula, tanto na Missa Tridentina quanto na Missa Nova, o uso de Ordinários bilíngües (latim-português) para aqueles que desejam entender o texto da Missa. Além disso, sendo o português uma língua diretamente derivada do latim, não há tanta dificuldade em reconhecer as palavras mais fundamentais do texto da Missa. Seria muito mais difícil reconhecê-lo num país que falasse língua anglo-saxã, como o inglês, por exemplo: e mesmo assim, nos EUA e na Inglaterra a Missa Tridentina é há muito celebrada, como também a Missa Nova em latim, e as igrejas são sempre lotadas, como expressam sacerdotes destes países.

Além disso, a alegação de que a Missa Tridentina tem "o padre de costas para o povo" é um capricho infundado e até mesmo infantil, pois o fiel sabe que o padre não está "de costas para o povo", mas sim "de frente para Deus". O padre está tomando a mesma posição do povo e orientando o povo no sentido de Deus. a posição versus Deum é a posição tradicional de oferecimento da Missa, desde a época dos Apóstolos, como testemunham-no as Liturgias orientais e os mais antigos Missais da Liturgia Romana, os quais podemos seguir até os primeiros séculos da Fé Cristã.

Diante de tudo isto, não há justificativa plausível para que se tenha, como alguns padres desta Diocese demonstraram, resistência à Missa Tridentina, como se esta fosse uma aberração anti-católica e blasfema, e como se os fiéis a ela apegados possuíssem algum tipo de doença ou estivessem necessariamente em cisma; ao contrário, eu sou tão católico quanto qualquer outro fiel desta Diocese, estou em comunhão com a Igreja tanto quanto qualquer outro, mesmo desejando de todo o coração a Missa Tridentina, e este meu desejo é legítimo e referendado pela Santa Igreja; o mesmo vale para todos os fiéis apegados às formas tradicionais da Santa Missa.

Excelência, nós não somos nem hereges nem cismáticos. Se a Missa Tridentina fosse celebrada nesta Diocese, ela não seria rezada por outro Bispo ou por outro Papa: ela seria rezada exatamente "pelo vosso servo, o Papa Bento, pelo nosso Bispo Jaime, e por todos os Bispos ortodoxos, aos quais incumbe a guarda da fé católica e apostólica" ("una cum fámulo tuo Papa nostro Benedictus e Antístite nostro Jacobo et ómnibus orthodoxis, atque cathólicae et apostólicae fidei cultóribus"). E quando unirmos nossos corações às intenção do sacerdote e da Igreja, unir-nos-emos em torno do nosso Pastor, que não é outro, senão Jaime, e em torno do Nosso Sumo Pontífice, que não é outro, senão Bento. Não somos, portanto, cismáticos nem hereges.

Somos filhos vossos, ovelhas do vosso rebanho. E como filhos vossos, temos também nossas necessidades espirituais, às quais o Bispo deve estar atento. E a mais premente destas necessidades é a Santa Missa Tridentina.

Portanto, Excelência, em meu nome e de todos os fiéis desta Diocese que são apegados à Missa Tridentina, peço que Vsª Excia. atenda nosso sincero pedido, feito com a mais profunda reverência e respeito, de que providencie um sacerdote e uma igreja nesta Diocese para que se celebre aos domingos (ou aos sábados) a Santa Missa Tridentina. Não pedimos nenhum igreja grandiosa ou de muito realce, mas apenas um lugar onde esta nossa necessidade possa ser devidamente sanada, e onde possamos ter regularmente a Santa Missa Tridentina.

Todos os fiéis tradicionais desta Diocese – entre os quais este que vos escreve – esperamos de Vsª Excia. providências no sentido da aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum e da solução desta premente necessidade espiritual destas ovelhas a vós confiadas, necessidade esta de ter regularmente a Santa Missa Tridentina.

Reiteramos: não somos cismáticos nem hereges. Somos filhos vossos tanto quanto quaisquer outros nesta Diocese. E nos sentiremos profundamente felizes e gratos se pudermos rezar, na Santa Missa Tridentina todos os domingos, por vosso ministério episcopal e pelo do Papa Bento XVI.

Fico no aguardo de vossa resposta.

Meu cordial abraço!

Peço-vos vossa bênção.

Atenciosamente,

--
Taiguara Fernandes de Sousa.

"Omnes cum Petro, ad Iesum per Mariam!"
(Todos com Pedro, a Jesus por Maria!)

***

Segunda Carta - 24 de Fevereiro de 2009

Excelentíssimo Dom Jaime Vieira Rocha,
Pax et Bonum!

Hoje (24/02) assisti à Missa de encerramento do "Crescer", na qual Vsª Excia. foi o Presidente da celebração.

Nesta Missa, na Homilia, Vsª Excia. falou sobre a diversidade de carismas na Igreja, como a Santa Igreja acolhe com amor a todos os carismas e suas formas próprias de se dirigir a Deus, sua espiritualidade própria, como ela apóia e promove os novos movimentos e comunidades eclesiais.

Com efeito, este é o ensinamento católico sobre a diversidade: "Contudo, desde a origem, esta Igreja una se apresenta com uma grande diversidade, que provém ao mesmo tempo da variedade dos dons de Deus e da multiplicidade das pessoas que os recebem. Na unidade do Povo de Deus se congregam as diversidades dos povos e das culturas. Entre os membros da Igreja existe uma diversidade de dons, de encargos, de condições e de modos de vida; 'na comunhão eclesiástica há, legitimamente, Igrejas particulares gozando de tradições próprias'. A grande riqueza desta diversidade não se opõe à unidade da Igreja" (Catecismo da Igreja Católica, n.814).

Ora, isto foi exatamente o que Vsª Excia. pregou em vossa homilia.

Animado pelas vossa homilia, venho escrever-vos mais uma vez intercedendo por todos os fiéis da Diocese de Campina Grande apegados às tradições litúrgicas mais genuinamente católicas.

Sabendo que, como ensina a Igreja, "a grande riqueza desta diversidade não se opõe à unidade da Igreja", peço de Vsª Excia. uma atitude de generosidade e amabilidade para com os fiéis de vossa Diocese que são ligados às tradições litúrgicas e apegados ao nosso rico patrimônio litúrgico católico, para que sejam atendidos em suas necessidades espirituais para com o Sacramento.

Rogo a Vsª Excia que nos permita ter em nossa Diocese, dominicalmente, a Santa Missa Tridentina.

Se Vsª Excia achar que não é possível atender-nos este pedido, peço que nos atenda um outro: que nos permita ter dominicalmente a Missa Nova, segundo o Missal Novo de Paulo VI, em latim, utilizando-se o português apenas nas Leituras, na homilia e nas partes móveis da Missa (o Próprio da Missa).

Conheço Padres que têm perfeita condição de celebrar na forma ordinária do Rito Romano em latim. Basta apenas que Vsª Excia nos conceda vossa permissão generosa e amável, e a garantia de que não haverá represálias, além de designar uma capela para isso.

Rogo a Vsª Excia. que seja amável e generoso para com o nosso carisma, e possa acolher com amor este grupo de fiéis de vossa Diocese que possui este sadio apego à tradição litúrgica da Santa Igreja, atendendo-nos a este pedido.

Peço-vos vossa bênção.

Meu cordial abraço!

Atenciosamente,

--
Taiguara Fernandes de Sousa.

"Omnes cum Petro, ad Iesum per Mariam!"
(Todos com Pedro, a Jesus por Maria!)

PER PERGNUM CHRISTI AD GLORIAM DEI!

domingo, 19 de julho de 2009

O herege Frei Betto deturpa a Encíclica Caritas in Veritate

Publicado em: Blog Veritatis Splendor

Chegou-nos por meio de amigos trechos de um artigo de Frei Betto no Correio Braziliense deste 17 de Julho onde o dominicano herege fala sobre a Encíclica Caritas in Veritate, do Papa Bento XVI:

“A caridade na verdade é o título mais recente da encíclica de Bento XVI, lançada a 29 de junho. Nela, o papa enfatiza a dimensão social e política do amor…
[...]
O documento homenageia Paulo VI ao fazer eco à Popolorum Progresio (1967), uma das mais progressistas dos últimos dois séculos.
[...]
Enquanto, no Brasil, se fala em ‘crescimento’, o papa lembra que ‘Paulo VI tinha uma visão articulada do desenvolvimento’.
[...]
A encíclica denuncia que ‘cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades. Nos países ricos,novas categorias sociais empobrecem e nascem novas pobrezas. Em áreas mais pobres, alguns grupos gozam duma espécie de superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora’.
[...]
E há quem suponha que a Teologia da Libertação morreu. Não apenas continua viva, como hoje apresenta abrigo até em documentos papais”.

Não sei o que é pior: se a cara de pau com que Frei Betto diz estas palavras ou se é a deturpação que faz da Caritas in Veritate. Frei Betto certamente não leu o documento e, pior ainda, já acha que é perito no mesmo.

Afirmar que a Teologia da Libertação encontra abrigo na Encíclica de Bento XVI é um absurdo sem precedentes. Dir-nos-ão que talvez o dominicano esteja esquizofrênico, mas achamos que na verdade é uma ação perfeitamente orquestrada e proposital, porque de bom e piedoso Frei Betto não possui nada.

O fato é que a Encíclica de Bento XVI tem sido louvada a altos brados retumbantes. Foi discutida na cúpula do G8, o Papa já foi proposto a Prêmio Nobel da Economia e o Presidente italiano já anunciou que concorda com os ensinamentos sociais de Bento XVI - e não será o primeiro. Que Teólogo da Libertação, em sua canalhice mais que conhecida, não aproveitaria para tirar uma casquinha?

É isto que faz Frei Betto e da forma mais descarada possível.

A Encíclica Caritas in Veritate visa a promover o desenvolvimento integral do ser humano: não a economia por si só, como querem materialistas liberais e comunistas, mas a vida econômica integrada à vida social, cultural, moral e religiosa do ser humano. E nisto não tem, de maneira alguma, base na Teologia da Libertação, mas na perene Doutrina Social da Igreja.

Ao denunciar as desigualdades, o Papa nada mais faz que reiterar a Doutrina Católica. Porque a Igreja Católica não negligencia a gravidade das desigualdades sociais, mas possui um entendimento delas completamente diferente dos Teólogos da Libertação. A Igreja não aceita as desigualdades sociais aberrantes, frutos da falta de caridade, solidariedade e liberdade entre os homens; mas a Igreja entende, baseada no Evangelho, que as pessoas não podem ser todas iguais: é preciso que haja entre elas sadias desigualdades, as quais tornam necessária a mútua cooperação entre os homens, a caridade entre eles. Não são desigualdades aberrantes, mas desigualdades sadias, frutos da particular situação de cada um, e que estimulam a fraternidade entre os homens, fazem com que uns precisem dos outros. Pois Deus, Nosso Senhor, não distribui os talentos de forma igual (Mateus 25,15).

Os Teólogos da Libertação entendem de maneira completamente diversa. Sua tese é a do chamado “igualitarismo” e possui raízes na Revolução Francesa e no Marxismo ateu. Ora, a Teologia da Libertação não tolera nenhuma desigualdade, quer os homens todos iguais, e iguais em tudo, sem diferença econômica alguma que seja. Mas os Teólogos da Libertação não respondem à seguinte questão: se todos os homens possuírem igual situação financeira e econômica, à la comunismo, como poderá haver entre eles caridade? Não serão auto-suficientes e fechados em si mesmos? E então como se desenrolará a vida social, sem que uns precisem dos outros? É por isso que a Igreja condena o igualitarismo marxista; é este mesmo igualitarismo que gera teses como a que diz que “toda religião é igual” e abusos litúrgicos como padres levando leigos para consagrarem junto com ele na Missa (pois, afinal, os leigos seriam “iguais” ao sacerdote…).

Desta maneira, Frei Betto deturpa desavergonhadamente as palavras do Papa Bento XVI sobre a desigualdade: Sua Santidade nada mais fez que reiterar a Doutrina da Igreja a respeito das desigualdades aberrantes de hoje, coisa que já fora feita, por exemplo, na Encíclica Centesimus Annus, de João Paulo II, em inúmeros discursos de ambos os Pontífices e no Compêndio de Doutrina Social da Igreja, publicado sob o Reinado do mesmo Papa Bento. Nada tem a ver com o igualitarismo da Teologia da Libertação.

Ao falar na Encíclica Populorum Progressio, Frei Betto chega ao cúmulo de afirmar que esta Encíclica foi “uma das mais progressistas dos últimos tempos”. Talvez Frei Betto se atenha somente ao vocábulo “Progressio” e daí deduza que a Encíclica foi “progressista”. Porque nesta Encíclica, o Papa Paulo VI se manteve na linha constante da Doutrina Social da Igreja, aprsentando soluções para o mundo moderno a partir dos ensinamentos de seus predecessores - Leão XIII, com a Rerum Novarum; Pio XI, com a Quadragesimo Anno; e João XXIII, com as Encíclicas Mater et Magistra e Pacem in Terris. Nesta Encíclica, Paulo VI alude - como Bento XVI - ao desenvolvimento integral do ser humano, compreensão que a Teologia da Libertação não possui.

A Teologia da Libertação acha que o Reino dos Céus se restringe à libertação das mazelas econômicas e políticas; a libertação não estaria no livrar-se do pecado e na conquista da santidade, mas sim no libertar-se da opressão do capitalismo e no lutar pela reforma agrária. Enfim, a Teologia da Libertação possui uma visão materialista da salvação, e reduz esta mesma salvação ao simples sucesso econômico igualitário: é a utopia de Karl Marx travestida de Cristianismo; Jesus não seria o Redentor dos homens, mas um revolucionário que anuncia a igualdade e o fim da opressão. Este é o anúncio da Teologia da Libertação: materialista, marxista, herético e irreverente (como toda heresia).

Se Frei Betto tivesse lido a Populorum Progressio veria que Paulo VI não enfatiza somente o desenvolvimento econômico (como faz a Teologia da Libertação), mas, sim, o desenvolvimento do homem todo, especial e principalmente seu desenvolvimento moral e espiritual:

O desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento econômico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo [...]. São condições mais humanas também: a consideração crescente da dignidade dos outros, a orientação para o espírito de pobreza, a cooperação no bem comum, a vontade da paz; o reconhecimento, pelo homem, dos valores supremos, e de Deus que é a origem e o termo deles. E finalmente e sobretudo, a fé, dom de Deus acolhido pela boa vontade do homem, e a unidade na caridade de Cristo que nos chama a todos a participar como filhos na vida do Deus vivo, Pai de todos os homens” (nn. 14.21).

E se Frei Betto tivesse lido a Caritas in Veritate, teria visto que Bento XVI também quer o desenvolvimento humano integral, e não somente o desenvolvimento econômico e político (como quer a Teologia da Libertação e Frei Betto, com ela). O Papa até condena os sistemas econômicos que rejeitam a liberdade do ser humano e o tornam uma marionete nas mãos do Estado, como o faz o sistema comunista, em nome de sua malfadada igualdade:

No elenco dos campos onde se manifestam os efeitos perniciosos do pecado, há muito tempo que se acrescentou também o da economia. Temos uma prova evidente disto mesmo nos dias que correm. Primeiro, a convicção de ser auto-suficiente e de conseguir eliminar o mal presente na história apenas com a própria acção induziu o homem a identificar a felicidade e a salvação com formas imanentes de bem-estar material e de acção social. Depois, a convicção da exigência de autonomia para a economia, que não deve aceitar « influências » de carácter moral, impeliu o homem a abusar dos instrumentos económicos até mesmo de forma destrutiva. Com o passar do tempo, estas convicções levaram a sistemas económicos, sociais e políticos que espezinharam a liberdade da pessoa e dos corpos sociais e, por isso mesmo, não foram capazes de assegurar a justiça que prometiam. Deste modo, como afirmei na Encíclica Spe Salvi, elimina-se da história a esperança cristã, a qual, ao invés, constitui um poderoso recurso social ao serviço do desenvolvimento humano integral, procurado na liberdade e na justiça” (n.34).

Bento XVI considera, pois, efeito pernicioso do pecado “identificar a felicidade e a salvação com formas imanentes de bem-estar material” - e a Teologia da Libertação faz exatamente isso. E repugna os sistemas econômicos que “espezinharam a liberdade da pessoa e dos corpos sociais e, por isso mesmo, não foram capazes de assegurar a justiça que prometiam” - como o fez (e faz) exatamente o sistema comunista.

Onde está, pois, a Teologia da Libertação que Frei Betto diz encontrar abrigo na Encíclica de Bento XVI?

Frei Betto não é esquizofrênico. Frei Betto possui muita - muita! - má fé.

E a má fé não é de Cristo. Somente o Demônio, para esconder sua horripilância, se disfarça com má fé em Anjo de Luz; Cristo, ao contrário, se mostra com sinceridade e verdade desnudado numa Cruz.

Frei Betto parece estar disfarçando a horripilância de sua moribunda Teologia da Libertação em anjo de luz.

Mas concordamos que ela não morreu: a Teologia da Libertação está viva nos atos de vários Bispos brasileiros e da CNBB, nas Missas abusivas e desrespeitosas celebradas por todo o país, nos livros da Editora Vozes e nos jornais em que - para vitória da imbecilidade - se dá espaço a Frei Betto e Leonardo Boff.

sábado, 18 de julho de 2009

Padre Fábio de Melo e os "sites conservadores"

O Padre Fábio de Melo se incomodou com a cobrança que vários apostolados católicos na internet estão lhe fazendo. Não se trata somente da histórica cobrança de que use uma batina ou clergyman ao invés de promover sua marca de Jeans Eclesiástico, mas, principalmente, a cobrença de que pregue conforme a verdadeira fé e não fique iludindo pobres almas com discursos românticos e sentimentalistas, porém relativistas e heréticos - "humanos demais".

Entre os Apostolados que mais exigiram decoro do Padre Fábio à sua função sacerdotal e à Doutrina da verdadeira e única Igreja - sob e pela qual foi ordenado - está o Apostolado Veritatis Splendor. O Veritatis publicou uma série de textos em seu Blog denunciando erros doutrinários concernentes à pregação do Padre Fábio de Melo. Uma lista destes textos pode ser vista neste link.

E Sua Reverendíssima parece ter conferido o nosso Blog. Em recente programa exibido na TV Canção Nova - o seu Direção Espiritual - Sua Revma. manda um recado aos "conservadores":
"Quantas vezes em sites do cristianismo tradicionalista você tem verdadeiras agressões a padres. Conteúdos extremamente agressivos. Porque o padre é moderno, porque o padre é isso e aquilo... Aí eu pergunto: 'tudo bem, você tem todo o direito de não gostar deste ou daquele padre, mas em nome da caridade que você deveria professar, você não tem o direito de escrever o que você escreve, de fazer o julgamento que você faz'", dizia, e isso tudo com o dedo em riste.
Sua Revma. talvez esteja se referindo ao apelido que lhe foi dado em vários meios católicos - o qual também foi adotado pelo Veritatis Splendor em alguns de seus textos - e que resume sua postura enquanto sacerdote: Padre "Fashion de Melo". Outros apelidos resumem seu discurso sentimental, romântico e relativista demais: Padre "Fala de Mel" ou "Favo de Mel".

A despeito da ironia que estes apelidos comportam, eles não são ofensivos nem faltam com a caridade. Isso se se entende a caridade como a Igreja entende, e não como os relativistas entendem. Porque se você entende a caridade como os relativistas, então você tem que ser caridoso com tudo - tudo mesmo! -, fechar os olhos, os ouvidos e a boca diante do erro, eximir-se de pregar o Evangelho e dizer para quem está errado: "tudo bem, tudo bem, você tem direito..." Mas se você entende a caridade como a Igreja de Deus entende - e é assim que todos deveriam entender se quiserem caminhar nas vias da retidão - a caridade comporta também a correção do erro, a denúncia do erro, até uma denúncia vigorosa, proporcional à gravidade do erro. Por que, como se pode ter amor por alguém e deixá-lo no erro? Como se pode dizer que se ama ao próximo e consentir que permaneça na lama que poderá levá-lo a perder a vida eterna - e simplesmente para não desagradar seu ego importante nesta vida?

Sempre atuais as palavras de São Josemaría Escrivá, patrono do En Garde!:
"Se a tua amizade se rebaixa até converter-te em cúmplice das misérias alheias, reduz-se a triste compadrio, que não merece o mínimo apreço" (Sulco, n.761)
Não! A caridade não consente ao erro. A caridade repugna o erro, denuncia-o, exige correção. A caridade não prescinde da verdade.

Para a exigência de caridade feita pelo Sua Revma., o Padre Fábio de Melo, relevamos apenas um trecho da Encíclica Caritas in Veritate, do Santo Padre, o Papa Bento XVI:
"Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações..." (n.4).
E o Cristianismo verdadeiro não é uma "reserva de bons sentimentos", uma reserva de romantismo e sentimentalismo, como parece querer - e demonstra - o Padre Fábio de Melo. Se a caridade prescindisse da verdade, como ensina o Papa, "acabaria confinada num âmbito restrito e carecido de relações". Ora, se fechássemos os olhos aos terríveis erros doutrinários do Padre Fábio de Melo em nome da caridade, poderíamos ter com ele uma ótima relação - e que caridade é essa que fica "confinada num âmbito restrito e carecido de relações"? É qualquer uma, menos a caridade cristã. Porque essa, especificamente falando, não prescinde da verdade e não se confina no âmbito das relações humana, mas visa a atingir o profundo da alma humana em sua resposta a Deus.

Não é possível, pois, que em nome da caridade prescindamos da Verdade, fechando os olhos ao erro, como parece exigir o Padre Fábio de Melo. Non possumus!

Aliás, se o Padre Fábio de Melo tivesse lido com atenção os textos do Blog VS - e parece que os leu, mas sem atenção - teria visto o artigo do Rafael Vitola, onde esclarece, em resposta às fãs do Padre que se insurgiam contra nós num furor realmente fanático e sectário:
"A dureza nos artigos sobre o padre Fábio de Melo, e mesmo as ironias, se devem ao fato de que o referido sacerdote extrapolou, há muito, o limite da tolerância. Suas heresias e sua postura (e o mal que ele faz, com sua legião de fanáticas) são bem piores do que um Mons. Jonas Abib da vida. A cada mal o seu remédio. Nunca o VS foi tão duro pois não se tinha apresentado um monstro tão nefasto quanto o referido sacerdote. [...] Ordinariamente, a caridade se manifesta pela doçura. Mas, em situações extraordinárias, é preciso firmeza e até certo sarcasmo que sirva para chamar a atenção das pessoas envolvidas. Julgamos ser este o caso. Claro que a forma importa. Claro que não é só o conteúdo o importante. Mas no caso do padre Fábio, usamos uma forma mais incisiva de modo proposital. A regra é a docilidade, mas, por vezes, a caridade pede mais dureza nas palavras. Julgamos que as ações do padre Fábio são gravíssimas, pelo mal que fazem e pelo fanatismo que despertam. Daí que, se as admoestações mais doces de antes não adiantaram, pensamos ser a hora de 'trançar o chicote'".
Ora, em poquíssimas palavras o Vitola esclareceu perfeitamente a questão. Não podemos esquecer que, cheio de caridade, mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo chamou a São Pedro de Satanás quando este lhe tentou (Mateus 16,23); e que São Paulo, pela caridade, anatematizou quem pregasse outros evangelhos, que não de Cristo (Gálatas 1,8-9). Vale lembrar que o próprio São Paulo ordenou a Timóteo que censurasse e probisse a pregação de "doutrinas extravagantes", e dizia que "esta recomendação só visa a estabelecer a caridade, nascida de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera" (I Timóteo 1,5). A caridade nasce de uma fé sincera, ensina São Paulo! Não adianta prescindir da verdade em nome da caridade, pois, como afirma o Papa Bento XVI, esta caridade só seria uma "reserva de bons sentimentos", uma caridade falsa. A caridade não tolera o erro, ela não fecha os olhos ao erro. É isso que Sua Revma. o Padre Fábio de Melo deveria compreender - ou aprender, se ler com seriedade as cartas de São Paulo e a Encíclica Caritas in Veritate.

O Padre Fábio de Melo ainda acusa os "sites conservadores", "tradicionalistas", de serem cristãos irresponsáveis, por estarem "julgando o outro":
"Cristão que se coloca para julgar o outro publicamente sem ao menos ter tido a oportunidade de se sentar com ele, isso é no mínimo cristianismo irresponsável".
Acusação infundada do começo ao fim, mas sedutora, admitimos, pela beleza e ordenação de suas palavras. Infundada, em primeiro lugar, por afirmar que tal "julgamento" foi feito sem um prévio "sentar para conversar". Ora, séculos atrás - desconsiderem a hipérbole - o Prof. Alessandro Lima, Diretor do Apostolado Veritatis Splendor, enviou uma carta à TV Canção Nova e ao Padre Fábio de Melo questionando-lhe sobre o seu desuso da veste talar, sua falta de decoro na escolha de vestimentas e também sobre suas pregações duvidosas. Não recebeu resposta. Há mais de um mês um amigo meu, do Regnum Christi de Recife, o Gustavo Souza, escreveu uma carta aberta ao Padre Fábio de Melo, pedindo-lhe esclarecimentos sobre sua lastimável entrevista; há três dias, no dia 15 de Julho, conversava com o Gustavo e este me relatava que até agora não tinha recebido resposta, e já até escrevera uma outra cobrando novamente os esclarecimentos.

Ou seja, se alguém não quer "sentar para conversar", com certeza não são os representantes dos "sites conservadores".

Acusação infundada, em segundo lugar, pela sua noção de "julgamento". O Padre Fábio crê que denunciar o erro do outro é "julgá-lo" e que ninguém tem o direito de julgar o outro; provavelmente porque Cristo disse: "Não julgueis e não sereis julgados" (Mateus 7,1). Ora, a interpretação errônea que o Padre dá a este mandamento de Nosso Senhor advém da sua errônea compreensão do que seja caridade. Já falamos da compreensão de caridade segundo o Evangelho e sabemos que esta não prescinde da verdade; portanto, denunciar o erro para corrigir o outro não ofende a caridade e, pelo contrário, é um dever da caridade, uma obra de misericórdia espiritual, segundo ensina a Santa Madre Igreja. Não é, pois, um pecado de "julgamento", como aduz Sua Reverendíssima.

O Padre Fábio de Melo lembra demais daquele trecho em que Jesus nos manda não julgar para não sermos julgados e esquece deste outro, em que o mesmo Senhor ordena: "Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a reta justiça" (João 7,24). É mandamento de Cristo, pois, "julgar conforme a reta justiça". Não é todo julgamento que é pecado; o julgamento conforme a reta justiça não é pecado, e foi ordenado por Cristo.

E quando um julgamento cai na proibição de Cristo e quando ele não cai? Não podemos, "não temos direito", para usar a expressão do Padre Fábio, de julgar o que se passa no coração, na mente, no espírito de cada pessoa, pois não temos conhecimento do que ocorre no íntimo de cada um. Somente Deus, Nosso Senhor, "perscruta os corações" (Romanos 8,27):
"Perscrutai-me, Senhor, para conhecer meu coração; provai-me e conhecei meus pensamentos" (Salmo 138,23).
Os corações, pois, não podemos julgar, pois neles não sabemos o que se passa. Este é o julgamento que Nosso Senhor Jesus Cristo proibe, pois realizá-lo seria pretender ter uma onisciência divina sobre as almas humanas que nenhum de nós possui; seria querer ser como Deus (Gênese 3,5). Por isso: "Não julgueis e não sereis julgados". Não pretendamos ser como deuses julgando os corações, e assim não seremos julgados pela nossa pretensão e soberba.

Mas a partir do momento em que o que está no coração é externalizado, i.e., se transforma em um ato externo, público, visível a todos, é possível realizar um julgamento conforme a reta justiça, denunciar o erro e corrigi-lo.
"Aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso que mancha o homem. Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias. Eis o que mancha o homem", ensina Nosso Senhor (Mateus 15,18-20).
Justamente porque o ato é externo, público, visível ao mundo, justamente porque "saiu da boca", mostrando externamente o que antes só estava no íntimo do coração, o julgamento não será errôneo ou baseado em meras aparências ou achismos: "Não julgueis pela aparência", ordena o Senhor.

Mas, por ser ato externo, público e visível a todos, um julgamento baseado em critérios cristãos - como a ortodoxia, p. ex. - não só será correto como também será justo; será um julgamento não repugnado, mas exigido pela caridade. É o julgamento conforme a reta justiça que ordena Nosso Senhor: "Julgai conforme a reta justiça".

Desta maneira, pois, a condenação do Padre Fábio de Melo aos "sites conservadores e tradicionalistas", de estarem "julgando" os sacerdotes e assim vivendo um "cristianismo irreponsável", não procede simplesmente porque é falsa.

Denunciar o erro de um sacerdote, corrigi-lo, é uma exigência da verdadeira caridade cristã - mas não, obviamente, da caridade sentimental e relativista, aquela "reserva de bons sentimentos", que o Papa Bento XVI repugna e que o Padre Fábio de Melo parece exigir para si.

E Sua Reverendíssima, o Padre Fábio de Melo, ainda diz:
"No meu site você nunca vai encontrar uma palavra para agredir alguém..."
Acontece que o único agredido pelo Padre Fábio de Melo, por suas pregações e textos, é justamente Nosso Senhor Jesus Cristo, que não tem seu Evangelho e a Doutrina que ele ensinou respeitados pelo Padre. Ele é o único agredido pelo Padre - e isto é muito pior do que "agressões" a qualquer sacerdotes, relevado o modo como o Padre Fábio entende o que seja uma "agressão".

Sua Reverendíssima, pois, precisa tomar cuidado com suas afirmações a respeito dos "sites tradicionalistas". Mas antes de tomar cuidado com estas afirmações, é preciso que tome cuidado com o que prega, que tenha mais decoro pelo Evangelho e pelo seu estado de sacerdote, e que interrompa sua abordagem relativista e sentimental, para pregar a verdadeira Doutrina da Igreja, não heresias.

Quase ao fim de seu discurso, Sua Reverendíssima, o Padre Fábio de Melo, ainda ordena aos seus espectadores:
"Corra! Corra destes sites que utilizam de conteúdo aparentemente cristão para destruir a imagem de muitas pessoas".
O apelo parece um tanto desesperado para salvar a própria imagem. Porque os sites que o Padre Fábio condena são justamente aqueles que mais estão conscientizando os católicos sobre os erros, incoerências e inexatidões do próprio Padre Fábio, como o Blog Veritatis Splendor. Pareceria que o simples fato de denunciar o erro de Sua Revma. e exigir sua correção - e isso pela caridade, como já demonstramos - tornaria um site somente "aparentemente cristão". Padre Fábio é intocável? Somos falsos cristãos ou "aparentemente cristãos" por denunciar seus erros? Cremos que não. Ademais, cremos que o que torna um site "aparentemente cristão" não é ele denunciar o erro e corrigi-lo - pois isto também Cristo e os Santos fizeram; o que torna algo "aparentemente cristão" é, isto sim, pregar heresias e os maiores absurdos afirmando que estas heresias e absurdos foram ditas por Cristo - e isso, com todo respeito que Sua Reverendíssima merece, quem faz é justamente o Padre Fábio.

Do exposto acima, cremos que a exortação do Padre Fábio de Melo a "correr" dos "sites conservadores e tradicionalistas" deveria ser julgada conforme a reta justiça, e não pelas aparências - pois a aparência de suas palavras é bem bonita e sedutora, mas altamente enganadora.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A elegância cristã: uma amostra do caráter

A elegância é uma virtude. O que é belo deve expressar uma realidade maior: a beleza de Deus, o Sumo Belo. Por isso a Liturgia é bela (quando bem celebrada), por isso os cantos gregorianos são tão angélicos, por isso as igrejas góticas são tão magnificamente arquitetadas: toda esta beleza quer fazer pensar em Deus.

Com a queda de nossos primeiros pais e a entrada do pecado no mundo, os sentidos humanos ofuscaram-se. Foi perdido aquele dom preter-natural da pureza dos sentidos. Por isso adão sente vergonha de Eva, e Eva de Adão: sua visão ofuscada não conseguia enxergar a imagem de Deus além da criatura e via somente o corpo nu do outro.

A beleza é um ideal a ser alcançado. Não por vaidade, nunca por soberba: para manifestar a Beleza de Deus.

Em primeiro lugar, e antes de tudo, a beleza do caráter. Ter hábitos cristãos, solidez e firmeza, costumes sóbrios, seriedade, pés no chão e olhos no céu. A "elegância da alma" deve ser uma luta diária, uma cruzada constante: dia após dia, vencendo o pecado... dia após dia.

Mas a beleza do caráter não pode ficar escondida. Os cristãos devem dar mostras externas de sua ordem interior, da beleza de sua alma. A Sagrada Escritura nos aconselha estas demonstrações externas da beleza interior:
"Pelo semblante se reconhece um homem; pelo seu apsceto se reconhece um sábio" (Eclesiástico 19,26).
O Livro do Eclesiastes, aquele mesmo que condena repetidas vezes a vaidade, ensina:
"A sabedoria de um homem ilumina-lhe o semblante e a severidade de seus traços é modificada por ela" (Eclesiastes 8,1).
É preciso, pois, para entender o que é a "elegância cristã", ter primeiro bem claro que seu objetivo não é a satisfação egoísta das vaidades próprias - a elegância cristã não é narcisista - mas sim a demonstração exterior de algo que parte de dentro: é a beleza da alma que se reflete no corpo, é a criatura tentando manifestar um pouco da Suma Beleza do Criador. Esse objetivo transcendente da "elegância cristã" a liberta completamente de qualquer viés egoísitico, vaidoso ou soberbo, e a transporta para um outro nível: o nível em que a elegância é uma virtude, pois quer elevar a Deus.

São Josemaría Escrivá, a respeito, ensinava com palavras fortes:
"Oxalá fossem tais o teu porte e a tua conversação que todos pudessem dizer, ao ver-te ou ouvir-te falar: 'Este lê a vida de Jesus Cristo'" (Caminho, n.2).
Note-se como o Santo relaciona os sentidos da visão e da audição ao sentimento de Cristianismo: à simples visão ou audição de uma pessoa, seria possível discernir nela Jesus Cristo! E esta manifestação de Cristo no cristão se dá pelo porte e pela conversação: o que manifestaria Nosso Senhor no porte e na conversação dos homens se não um senso elegância avesso à vulgaridade dos inimigos de Cristo?

Por isso, São Josemaría adiciona a este seu conselho sobre a graça no porte e no falar:
"Gravidade. - Deixa esses meneios e trejeitos de mulherzinha ou de moleque. - Que o teu porte exterior seja o reflexo da paz e da ordem do teu espírito" (Caminho, n.3).
O porte exterior deve manifestar, portanto, a paz e a ordem do espírito. O porte exterior elegantemente cristão não deve manifestar a vaidade e a soberba própria, não admite "trejeitos de mulherzinha ou de moleque", frutos de uma mente imatura e desordenada.

O porte exterior elegantemente cristão transcende a isso, refletindo antes de tudo a paz e ordem interior do espírito ordenado.

Há aí, pois, uma diferença fundamental entre a mera e vulgar vaidade e o ideal da "elegância cristã".

Na Carta "O Homem revelado por Cristo" (Fevereiro de 2004), o Padre Marcial Maciel, Fundador dos Legionários de Cristo e do Movimento Regnum Christi, fala a todos os mebros do Movimento sobre a elegância cristã, baseada no pudor e na modéstia, buscando na beleza um valor transcendental, e não a mera satisfação de vaidades egoísticas:
"O pudor e a modéstia são virtudes que levam o cristão a se conduzir sempre de acordo com a sua dignidade de filho de Deus, particularmente no cuidado do próprio corpo e na maneira de se vestir. É verdade que 'o hábito não faz o monge', mas o cristão testemunha a plenitude do homem novo, de que se revestiu no dia do batismo, ao manifestar quem é e ao refletir de certa forma o talante da própria personalidade no modo de se apresentar: com bom gosto, mas sem ostentação; com discreta elegância e dignidade, com o respeito e o pudor que protege o mistério da pessoa e do amor, e com essa simplicidade que deixa transluzir espontaneamente a riqueza e a beleza do coração (cf. Col 3,9-17).

Longe de sentimentos de repressão, de tabus ou preconceitos moralistas, como alguns podem pensar, esta virtude nasce da consciência de que a nossa alma, desde o batismo e sempre enquanto permanecer em estado de graça, é templo do Espírito Santo, e de que o corpo adquire, de certo modo, um caráter 'sagrado', capaz de refletir toda a riqueza de que é portador. 'Não sabeis —dirá São Paulo— que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós e que recebestes de Deus, e que não vos pertenceis? Fostes bem resgatados! Glorificai, portanto, a Deus no vosso corpo' (1Cor 6,19-20).

Esta visão cristã do corpo se opõe de frente à tendência cultural predominante, que, por causa de uma liberdade mal entendida e da permissividade dos costumes, estabeleceu um culto ao corpo, narcisista e alienante, que endeusa valores estéticos despojados do seu conteúdo ético e raia às vezes no mau gosto, na vulgaridade e no absurdo. Certos costumes no vestir e no penteado, certas maneiras de tratar o próprio corpo, embora na moda, escondem ou até deformam a beleza mais original da pessoa; e atentam, portanto, contra a dignidade de um homem e de uma mulher que se professam cristãos. Poderiam parecer detalhes nímios ou periféricos, mas não é verdade que às vezes precisamos de uma grande dose de renúncia para não ceder à pressão das ideologias dominantes e aos reclames de determinadas modas, guiadas mais por parâmetros comerciais e hedonistas do que pelos critérios do Evangelho?"

A busca da elegância, pois, deve figurar entre os ideais do bom cristão. Mas sempre - sempre! - como uma amostra de um caráter firme, baseado em sólidos princípios cristãos, transcendendo à reflexão da beleza de Deus.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A Frivolidade: uma "doença do caráter"

Um homem precisa ter caráter se quiser ser homem realmente. E caráter é ter personalidade, é lutar pelo que acredita - por Deus, Autor da vida; pela sua vida própria, pela mulher que ama, e por uma infinidade de coisas que cada um conhece.

Caráter envolve firmeza, é ser viril em suas decisões, é dominar-se a si mesmo - pois este é o domínio mais difícil de se conseguir, e portanto o mais honrado.

Só assim se pode ser homem - macho! - realmente. Homem que é Homem precisa ser Homem de caráter. Senão não é Homem. Simples assim!

O caráter deveria ser o sobrenome do Homem: um sinal constante de que ele é o que é, de que cumpre com a vocação à qual Deus lhe chamou no instante da concepção - a vocação de ser macho. Ele não só aparenta ser: ele é!

A doença da falta de caráter nos dias atuais é degradante. Uma vergonha para os homens de nossa geração. Dá-se desculpas para tudo: para não trabalhar, para não ter um compromisso sério, para sair com mil mulheres e não amar nenhuma delas, para não ir à Igreja - nunca! -, para tratar os outros com vileza e desonestidade. Todas desculpas de homens que não são homens realmente - porque não têm caráter.

Por causa destas desculpas que desviam do caminho São Josemaría Escrivá ensinava:
"Pretextos. - Nunca te faltarão para deixares de cumprir os teus deveres. que fartura de razões... sem razão! Não pares a considerá-las. - Repele-as e cumpre a tua obrigação" (Caminho, n.21).

"Desculpa própria do homem frívolo e egoísta: 'Não gosto de comprometer-me com nada'" (Sulco, n. 539).
A frivolidade é uma enfermidade entre os homens modernos. Este não querer assumir compromissos, este desrespeitar os que já foram assumidos, este ser mudano, sem domínio sobre si mesmo... tudo isto é frivolidade. E não há coisa que torne os homens menos homens e mais bestas do que ela.

São Josemaría advertia contra essa "doença do caráter":
"Não caias nessa doença do caráter que tem por sintomas a falta de firmeza para tudo, a leviandade no agir e no dizer, o estouvamento..., a frivolidade, numa palavra. Essa frivolidade, que - não o esqueças - torna os teus planos de cada dia tão vazios ('tão cheios de vazio'), se não reages a tempo - não amanhã; agora! -, fará da tua vida um boneco de trapos morto e inútil" (Caminho, n.18).

"Assim, bobeando, com essa frivolidade interior e exterior, com essas vacilações em face da tentação, com esse querer sem querer, é impossível que avances na vida interior" (Sulco, n.154).
Um Homem não pode permanecer a "bobear". A frivolidade não merece cultivo. O Homem, se quiser vencer esta enfermidade do caráter, precisa assumir-se como Homem, e em conseqüência assumir os compromissos para os quais é chamado: com Deus, com a Igreja, consigo mesmo, com sua santificação pessoal, com sua família, com seu trabalho e profissão, com seus estudos, etc.

Somente a vitória da frivolidade poderá abrir caminho à verdadeira virilidade.
"Enquanto não lutares contra a frivolidade, a tua cabeça será semelhante a uma loja de bricabraque: não conterá senão utopias, sonhos e... trastes velhos" (Sulco, n.535).
E nada de pretextos! Nada de justificar os defeitos dizendo: "Eu sou assim mesmo...", para não lutar contra a frivolidade própria.
"Não digas: 'Eu sou assim..., são coisas do meu caráter". São coisas da tua falta de caráter. Sê homem - esto vir" (Caminho, n.4)

"Obstinas-te em ser mundano, frívolo e estouvado porque és covarde. Que é, senão covardia, esse não quereres enfrentar-te a ti próprio?" (Caminho, n.18).

domingo, 12 de julho de 2009

Esclarecimento da Congregação para Doutrina da Fé - Sobre o aborto provocado.

Recentemente foram recebidas pela Santa Sé diversas cartas, inclusive da parte de altas personalidades da vida política e eclesial, que informaram sobre a confusão criada em vários países, sobretudo na América Latina, após a manipulação e instrumentalização de um artigo de Sua Excelência Monsenhor Rino Fisichella, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, sobre a triste história da “menina brasileira”.

Em tal artigo, publicado no “L’Osservatore Romano” de 15 de março de 2009, era proposta a doutrina da Igreja, também tendo em conta a situação dramática da supracitada menina, que – como se pôde notar mais tarde – foi acompanhada com toda sensibilidade pastoral, em particular pelo então Arcebispo de Olinda e Recife, Sua Excelência Monsenhor José Cardoso Sobrinho. A respeito, a Congregação para a Doutrina da Fé reitera que a doutrina da Igreja sobre o aborto provocado não mudou nem poderia mudar.

Tal doutrina foi exposta nos números 2270-2273 do Catecismo da Igreja Católica nestes termos:

“A vida humana deve ser respeitada e protegida, de modo absoluto, a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento da sua existência, devem ser reconhecidos a todo o ser humano os direitos da pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo o ser inocente à vida. «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi: antes que saísses do seio da tua mãe, Eu te consagrei» (Jr 1, 5). «Vós conhecíeis já a minha alma e nada do meu ser Vos era oculto, quando secretamente era formado, modelado nas profundidades da terra» (Sl 139, 15). A Igreja afirmou, desde o século I, a malícia moral de todo o aborto provocado. E esta doutrina não mudou. Continua invariável. O aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral: «Não matarás o embrião por meio do aborto, nem farás que morra o recém-nascido» (Didaché, 2, 2). «Deus [...], Senhor da vida, confiou aos homens, para que estes desempenhassem dum modo digno dos mesmos homens, o nobre encargo de conservar a vida. Esta deve, pois, ser salvaguardada, com extrema solicitude, desde o primeiro momento da concepção; o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis» (Concilio Vaticano II, Gaudium et spes, 51). A colaboração formal num aborto constitui falta grave. A Igreja pune com a pena canônica da excomunhão este delito contra a vida humana. «Quem procurar o aborto, seguindo-se o efeito («effectu secuto») incorre em excomunhão latae sententiae (Cic, can. 1398), isto é, «pelo fato mesmo de se cometer o delito» (Cic, can. 1314) e nas condições previstas pelo Direito (cfr. Cic, cann. 1323-1324). A Igreja não pretende, deste modo, restringir o campo da misericórdia. Simplesmente, manifesta a gravidade do crime cometido, o prejuízo irreparável causado ao inocente que foi morto, aos seus pais e a toda a sociedade. O inalienável direito à vida, por parte de todo o indivíduo humano inocente, é um elemento constitutivo da sociedade civil e da sua legislação: «Os direitos inalienáveis da pessoa deverão ser reconhecidos e respeitados pela sociedade civil e pela autoridade política. Os direitos do homem não dependem nem dos indivíduos, nem dos pais, nem mesmo representam uma concessão da sociedade e do Estado. Pertencem à natureza humana e são inerentes à pessoa, em razão do ato criador que lhe deu origem. Entre estes direitos fundamentais deve aplicar-se o direito à vida e à integridade física de todo ser humano, desde a concepção até à morte»… «Desde o momento em que uma lei positiva priva determinada categoria de seres humanos da proteção que a legislação civil deve conceder-lhes, o Estado acaba por negar a igualdade de todos perante a lei. Quando o Estado não põe a sua força ao serviço dos direitos de todos os cidadãos, em particular dos mais fracos, encontram-se ameaçados os próprios fundamentos dum «Estado de direito» [...]. Como consequência do respeito e da protecção que devem ser garantidos ao nascituro, desde o momento da sua concepção, a lei deve prever sanções penais apropriadas para toda a violação deliberada dos seus direitos » ” (Congregazione per la Dottrina della Fede, Istruzione Donum vitae, III).

Na encíclica Evangelium Vitae, o Papa João Paulo II reafirmou esta doutrina com a autoridade de Supremo Pastor da Igreja: “com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus Sucessores, em comunhão com os Bispos — que de várias e repetidas formas condenaram o aborto e que, na consulta referida anteriormente, apesar de dispersos pelo mundo, afirmaram unânime consenso sobre esta doutrina — declaro que o aborto directo, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente. Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal.” (n. 62).

No que diz respeito ao aborto provocado em determinadas situações difíceis e complexas, vale o ensinamento claro e preciso do Papa João Paulo II: “É verdade que, muitas vezes, a opção de abortar reveste para a mãe um carácter dramático e doloroso: a decisão de se desfazer do fruto concebido não é tomada por razões puramente egoístas ou de comodidade, mas porque se quereriam salvaguardar alguns bens importantes como a própria saúde ou um nível de vida digno para os outros membros da família. Às vezes, teme-se para o nascituro condições de existência tais que levam a pensar que seria melhor para ele não nascer. Mas estas e outras razões semelhantes, por mais graves e dramáticas que sejam, nunca podem justificar a supressão deliberada de um ser humano inocente” (Encíclica Evangelium Vitae, n. 58)

Quanto à problemática de determinados tratamentos médicos a fim de preservar a saúde da mãe, é necessário distinguir bem entre dois casos diversos: de um lado, uma ação que diretamente provoca a morte do feto, por vezes impropriamente chamado aborto “terapêutico”, que não nunca pode ser lícito enquanto é o assassinato direto de um ser humano inocente; de outro lado uma intervenção em si não abortiva que pode ter, como consequência colateral, a morte do filho: “Se, por exemplo, a salvação da vida da futura mãe, independentemente de seu estado de gravidez, requerer urgentemente um ato cirúrgico ou outra aplicação terapêutica que teria como conseqüência acessória, de nenhum modo desejada nem intencionada, mas inevitável, a morte do feto, um tal ato não pode ser dito um direto atentado à vida inocente. Nestas condições, a operação pode ser considerada lícita, como outras intervenções médicas similares, sempre que se trata de um bem de alto valor, isto é, a vida, e não seja possível restituí-la após o nascimento da criança, nem para utilizar outro remédio eficaz “(Pio XII, Discorso al “Fronte della Famiglia” e all’Associazione Famiglie numerose, 27 novembre 1951).

Quanto à responsabilidade dos profissionais de saúde, é preciso lembrar as palavras do Papa João Paulo II: “A sua profissão pede-lhes que sejam guardiães e servidores da vida humana. No atual contexto cultural e social, em que a ciência e a arte médica correm o risco de extraviar-se da sua dimensão ética originária, podem ser às vezes fortemente tentados a transformarem-se em fautores de manipulação da vida, ou mesmo até em agentes de morte. Perante tal tentação, a sua responsabilidade é hoje muito maior e encontra a sua inspiração mais profunda e o apoio mais forte precisamente na intrínseca e imprescindível dimensão ética da profissão clínica, como já reconhecia o antigo e sempre atual juramento de Hipócrates, segundo o qual é pedido a cada médico que se comprometa no respeito absoluto da vida humana e da sua sacralidade (Encíclica Evangelium Vitae, n. 89)

(©L’Osservatore Romano – 11 de julho de 2009)

Fonte: Fratres in Unum

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Curtinhas - Postagens minhas no Direto da Sacristia e no VS Blog

Seguem links e trechos das postagens de notícias que fiz recentemente no Direto da Sacristia e no VS Blog:

- Obama no confessionário - Papa Bento XVI ressalta compromisso com a vida (em Direto da Sacristia): "[A] visita do Presidente Barack Obama ao Papa Bento XVI deveria ter como tema principal, como é óbvio, a defesa da vida em todas as suas fases, da concepção ao seu declínio natural. Dito e feito! E bem feito! Bento XVI presenteou Obama com um exemplar de sua Encíclica Caritas in Veritate - importantíssima para que o Presidente reflita sobre a crise atual - e com um exemplar da Instrução Dignitas Personae da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre questões de bioética, onde é reiterado o ensino da Igreja sobre aborto e manipulação de embriões. Que golpe de direita de Bento XVI no abortismo obamunista!"

- Congregação para a Doutrina da Fé esclarece sobre o aborto em Recife (em Direto da Sacristia): "uma Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé esclarecendo o lastimável artigo de Dom Rino Fisichella, Prefeito da Pontifício academia para a Vida, sobre o aborto da menina de 9 anos em Recife. Dom Rino execrava o Arcebispo de Olindo e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, por ser rígido e anti-pastoral e apoiava o aborto na menina, esquecendo de uma vez só que Dom José prestou o mais vivo auxílio, do começo ao fim - como agora reconhece a declaração - e que o aborto provocado é pecado gravíssimo, que clama aos céus, segundo a Doutrina da Igreja".

- Visitação apostólica aos Legionários de Cristo a partir do próximo dia 15 de Julho (em Direto da Sacristia e VS Blog): "
Após serem noticiados graves fatos acerca da vida moral do Padre Fundador dos Legionários de Cristo, o Padre Marcial Maciel, LC, a Santa Sé anunciou uma visitação apostólica às instituições dos Legionários de Cristo, visitação acolhida por fervor pela própria Congregação e seu Diretor Geral, o Padre Álvaro Corcuera, LC, pois servirá para extirpar questões freqüentes acerca da idoneidade da Coongregação. Agora foi estabelecida a data para o início da visitação, bem como os Bispos visistadores apostólicos e as àreas de ação".

- Papa é proposto para o Prêmio Nobel de Economia (em Direto da Sacristia e VS Blog): "
Com apenas poucos dias de luz, a Encíclica social de Bento XVI, Caritas in Veritate, já provoca efeitos grandiosos: o economista Ettore Gotti Tedeschi propôs Sua Santidade para o Prêmio Nobel de Economia".

- Novas faculdades da Sagrada Congregação para o Clero (em Direto da Sacristia): "
Antes do início do Ano Sacerdotal, o Santo Padre Bento XVI concedeu à Sagrada Congregação para o Clero faculdades especiais para inqüirir, processar e julgar sacerdotes que atentassem ao matrimônio ou que cometessem outros pecados graves contra o Sexto Mandamento (como atos de homossexualismo ou pedofilia). Bento XVI se cansou da ineficiência de vários Bispos em resolver o problema com firmeza e mão forte [...]. Por isso o Papa, ciente de sua missão como Príncipe dos Apóstolos e Chefe da Igreja, tomou para si a tarefa de consertar as coisas. [...] [A]gora Sua Santidade resolve conceder privilégios especiais à Sagrada Congregação para o Clero para punir sacerdotes 'puladores de cerca'. E isto quando estava para se iniciar o Ano Sacerdotal..."

Leiam as notícias completas e se mantenham informados!

En Garde, soldat!

De São Thomas More: "Esta é a Fé Católica: a não ser que o homem creia, não poderá salvar-se”.

A seguir, transcrevo um excelente texto publicado em Fratres in Unum, de autoria de Michael Davies, sobre o martírio de São Thomas More, padroeiro deste Blog, São João Fisher, Bispo fiel ao Papa, e demais companheiros mártires da Inglaterra, quando da perseguição movida por Henrique VIII para a fundação do Anglicanismo. O texto é impressionante, de um realismo de detalhes estarrecedor. Mais do que isso, mostra o amor pela Fé Católica que tiveram aqueles santos homens, até a entrega total de si mesmos. Eles viveram aquilo de que falava o grande São Josemaría Escrivá, outro Padroeiro do En Garde!:
"Bebamos até a última gota o cálice da dor na pobre vida presente. - Que importa padecer dez, vinte, cinqüenta anos..., se depois vem o Céu para sempre, para sempre..., para sempre? E sobretudo - melhor do que a razão apontada - 'propter retributionem' [pela recompensa] -, que importa padecer, se se padece para consolar, para dar gosto a Deus Nosso Senhor, com espírito de reparação, unido a Ele na sua Cruz..., numa palavra: se se padece por Amor?" (Caminho, n.182)
Como viveram estes Santos Mártires da Inglaterra essa realidade nobre de "beber até a última gota o cálice da dor na pobre vida presente", para em tudo estarem conformes a Jesus Cristo, Ele que, embora Senhor de tudo e de todos, não rejeitou nem o sofrimento nem a morte. Eles nos deram o exemplo: aprendamos, imitemos!

Sejamos soldados fortes, toquemos a face ferida de Nosso Senhor no nosso sofrimento de cada dia, metamo-nos na chaga de Jesus Cristo até aprendermos a ser bons soldados Dele. Que o exemplo de São Thomas More, São João Fisher e companheiros mártires nos ajude a compreendermos esta grande realidade.

Segue o texto a partir de Fratres in Unum:



Na festa dos grandes Santos João Fischer e Thomas Morus, apresentamos a nossos leitores algumas antigas anotações feitas da obra de Michael Davies, Saint John Fischer, The martyrdom of John Fischer, Bishop, during the reign of King Henry VIII, The Neumann Press, Long Prairie, Minnesota, 1998.

* * *

A maneira com que o clero rivalizava entre si para ver quem fazia mais os caprichos do rei foi, talvez, o fato mais desgostoso de toda a história do catolicismo inglês. Os bispos foram os líderes na corrida para capitular. O decano e capítulo de São João, Londres, não só jurou, mas afirmou que Henrique era o único “a quem, sozinho, depois de Jesus Cristo nosso Salvador, nós devemos tudo”.

O juramento exigido das ordens religiosas era ainda mais duro que do restante do clero secular: deviam reconhecer o casto e santo casamento entre Henrique e Ana.

Esperava-se que tal juramento colocasse fim nas ordens religiosas da Inglaterra. Tal esperança foi vã:

“Se as ordens religiosas são vistas como o exército permanente do Papado, nenhum exército já se rendeu tão facilmente”, escreveu o Padre Constant.

Os monges que resistiram podem ser contados à mão. Em 20 de abril de 1535, John Houghton, Augustine Webster e Robert Lawrence, os priores da Charterhouse de Londres, Beauvale e Axelhome foram presos. Juntou-se a eles depois Richard Reynolds, tido como o monge mais sábio da Inglaterra.

Os padres disseram que eram capazes de aceitar tudo o que fosse permitido pela lei de Deus. [Thomas] Cromwell respondeu:

“Eu não admito exceções. Se a Lei de Deus permite ou não, vocês devem jurar sem qualquer reserva que seja, e devem observá-lo também”.

Os monges objetaram que a Igreja Católica havia sempre ensinado o contrário, e tiveram por resposta:

“Eu não me importo em nada com o que a Igreja manteve ou ensinou. Quero que vocês testifiquem por juramento solene que crêem e firmemente sustentam o que nós propomos: que o Rei é o chefe da Igreja da Inglaterra”.

No julgamento, os monges reafirmaram que a supremacia do Papa era instituída por Nosso Senhor. Dois dos jurados se negaram a condenar padres de tão radiante santidade, apesar de ameaças de padecer o mesmo que os monges. Ameaçado, o júri relutantemente considerou os monges culpados. Deveriam ser enforcados, pendurados e esquartejados.

São Thomas Morus e sua filha Margaret testemunharam a triste procissão da janela de sua cela. Lágrimas vieram aos seus olhos vendo a cena. Disse o santo à Margaret:

“Veja, vossa alteza não vê, Meg, que esses benditos padres estão agora alegremente indo à morte como noivos a um casamento”.

Quando jovem, Morus aspirou à vida cartuxa, mas depois decidiu que esta não era sua vocação. Em sua grande humildade disse o santo que Deus estava chamando os monges à vida eterna como prêmio por darem suas vidas em grandes dificuldades, enquanto ele era indigno de tal graça e, portanto, era condenado a uma vida mais longa na terra.

Num ato de barbárie sem precedentes, os monges foram executados com seus próprios hábitos, já que se fossem culpados por traição deveriam ser reduzidos a estado leigo e executados com roupas civis; uma afronta à Igreja nunca vista na Inglaterra católica.

“Ao beato John Houghton Deus dignou-se conceder o sinal de honra em ser o primeiro homem desde os tempos pagãos a sofrer a morte na Inglaterra por ser católico. Após amavelmente abraçar o carrasco, que suplicou seu perdão, o santo mártir entrou na carroça que ficava debaixo da forca; e lá, à vista da multidão, lhe foi perguntado novamente se ele se submeteria à lei do reino, antes que fosse tarde. Nada amedrontado, respondeu: ‘Eu tomo Deus todo-poderoso por testemunha e suplico a todos aqui presentes para atestar por mim no terrível perigo de julgamento, que estando para morrer em público, declaro que neguei-me a obedecer a vontade de Sua Majestade o Rei, não por obstinação, malícia ou espírito de rebeldia, mas somente por medo de ofender à suprema Majestade de Deus. Nossa Santa Mãe decretou e impôs de outra forma que decretaram o Rei e o Parlamento. Estou, portanto, vinculado em consciência e pronto e desejoso a sofrer qualquer tipo de tortura do que negar a doutrina da Igreja. Rezem por mim, e tenham misericórdia de mim, irmãos, de quem fui indigno Prior”.

Rezando sua última oração, disse ele o Salmo 30:

“Em vós, Senhor, coloquei minha esperança; não seja eu desamparado: dai-me a vossa justiça”

Uma grossa corda foi escolhida, por medo de que ele fosse estrangulado e morresse muito rapidamente. A carroça foi retirada e o bom monge, que havia feito tanto bem a muitos e mal a ninguém, estava suspenso como um malfeitor. Após, a parte mais cruel: a corda foi cortada e o corpo caiu no chão, mas John não estava morto. O carrasco enfiou um longo e apavorante garfo, retirou seus intestinos e os queimou num fogo preparado para esta hora.

O pobrezinho estava consciente o tempo todo e enquanto sofria, ouvia-se clamar:

Oh Santíssimo Jesus, tende misericórdia de mim nesta hora!”.

Quando o carrasco colocou sua mão no coração, o beato mártir falou novamente:

“Ó meu bom Jesus! O que vós fareis com meu coração?”

A batalha chegara ao fim. John Houghton foi fiel até o fim e ganhou a coroa da vida.

A todos os mártires era oferecido o pleno perdão se renunciassem sua Fé católica, mas todos preferiram a morte à apostasia. O coração de John Houghton foi esfregado em sua face. Os corpos foram esquartejados e depois pendurados em diversas partes de Londres.

* * *

Fisher recebeu a mesma sentença que os monges cartuxos.

“Meus senhores, estou aqui condenado diante de vós por alta traição por negar a supremacia do Rei sobre a Igreja da Inglaterra, mas por qual ordem de justiça deixo a Deus, que perscruta tanto a consciência de Sua Majestade como as vossas; não menos, sendo considerado culpado como consta nos termos, estou e devo estar satisfeito com tudo o que Deus enviará, cuja vontade eu inteiramente me entrego e submeto. E agora, para dizer claramente o que penso quanto a essa matéria da supremacia do rei, penso realmente, e sempre pensei, e declaro agora pela última vez, que Sua Majestade não pode justamente clamar qualquer supremacia sobre a Igreja de Deus como ele agora clama; nem fora visto ou ouvido que qualquer príncipe temporal anterior a estes dias presumisse a esta dignidade; entretanto, se o Rei irá agora se aventurar em proceder esse caso estranho e raro, então sem dúvidas ele incorrerá na grave ira do Onipotente, para grande dano de sua própria alma e de muitos outros, e para futura ruína deste reino a ele submetido; de forma que rezo para que Sua Majestade lembre-se em bom tempo e recupere o bom conselho para preservação de si mesmo, de seu reino e para tranqüilidade de toda a Cristandade”.

Com a sentença, muitos dos que lá estavam ficaram com lágrimas nos olhos. A sentença foi mudada pelo rei para a guilhotina, pois temia-se, por conta de sua saúde, que o bispo morresse a caminho de forca. O alívio do bispo em ver seu caso resolvido era tamanho que até conseguiu caminhar na volta para a torre, quando grande multidão o acompanhava como que numa procissão.

Uma notícia contemporânea afirmava que o bispo parecia voltar de uma festa; além disso, seu comportamento e gestos mostravam uma grande felicidade interior.

* * *

Toda depressão de alma que acompanhava o santo havia acabado. Na manhã do dia 22 de junho o tenente veio ao pé de sua cama e o pegou dormindo, trazendo a ele a notícia de sua execução. Quando soube que o horário marcado era às 10 da manhã, o Santo respondeu:

“Bem, então eu vos peço que me deixeis dormir uma ou duas horas, pois devo dizer que não dormi muito essa noite; e ainda, para dizer a verdade, não foi por algum medo da morte, mas por conta de minha grande enfermidade e fraqueza”.

E ele se virou e foi dormir novamente.

Quando foi acordado de novo, pediu ajuda para se levantar e para retirar a camisa de pêlos que ele sempre vestiu, [como forma de penitência], colocando uma camisa branca e suas melhores vestes.

Vossa senhoria não percebe que esse é o dia de nosso casamento e que nós devemos, portanto, usar o branco para a solenidade do casamento?”

Saindo da Torre, encostou-se numa parede para se apoiar e abriu seu Evangelho, dizendo em vós alta:

“Esta é a vida eterna: que eles possam conhecer-Vos, o único verdadeiro Deus, e a Jesus Cristo que Vós enviastes. Eu vos glorifiquei na terra: eu terminei o trabalho que Vós me destes para fazer” (João, 17:3-4).

Fechando o livro, disse:

Aqui está todo o conhecimento necessário para o fim de minha vida”.

Durante todo o percurso para a torre, seus lábios moviam-se em oração. Fez questão de não precisar de ajuda para chegar até o patíbulo.

O sol brilhava forte. Chegando, o carrasco, como de costume, ajoelhou-se pedindo perdão, no que o Cardeal respondeu:

“Eu vos perdôo de todo o coração e confio em Nosso Senhor que Ele me verá morrer vigorosamente”.

Foi dada a ele a última chance de reconhecer a supremacia do Rei, no que o santo respondeu:

“Povo cristão, eu venho até aqui para morrer pela fé na Igreja Católica de Cristo, e eu agradeço a Deus pois até agora minha coragem tem me servido bem para tal, de forma que até agora eu não temi a morte; portanto, desejo que me ajudeis e que me assistais com vossas orações, para que bem no momento e instante da pancada de minha morte eu então não me acovarde em qualquer ponto da Fé Católica por medo; e eu rezo a Deus para que salve o Rei e o reino, mantenha Sua Santa Mão sobre ele e lhe dê bom conselho”.

Por fim, ficou de joelhos, rezou o Te Deum e o salmo Em Vós Senhor coloquei minha confiança. Depois avisou o carrasco para vendar seus olhos, abaixou-se e colocou seu pescoço no bloco, no que o carrasco arrancou sua cabeça num único golpe.

Uma divina ironia fez com que a morte de São João Fisher ocorresse em 22 de junho, festa de Santo Albão, primeiro mártir da Bretanha. A roupa do condenado era uma das gratificações do carrasco, ficando o corpo do condenado deitado nu até que uma boa alma se apiedasse e o cobrisse.

O corpo foi enterrado nu, sem reverência alguma ao santo bispo. Os fiéis começaram a vir em grande número venerar o grande santo, e então o bispo foi transportado para a Igreja de São Pedro ad Vincula, próximo ao corpo de São Thomas Morus, que foi sentenciado em 1º de julho. Após a sentença, Morus afirmou abertamente que nenhum leigo poderia usurpar aquilo que foi dado a São Pedro por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Numa carta a Cromwell quinze meses antes, Morus expressou a Fé pela qual ele e Fisher morreriam:

“Esta é a Fé Católica: a não ser que o homem acredite, não poderá salvar-se”

São Thomas Morus foi executado em 6 de julho com a mesma coragem do santo bispo e dos cartuxos. Testemunhas oculares afirmam que ele demonstrou alegria diante da decapitação, afirmando que morria fiel ao Rei e como verdadeiro Católico diante de Deus.

A cabeça de São João Fisher foi colocada na ponte de Londres. Uma lenda diz que Ana Bolena foi a primeira a expressar deseja de vê-la. Olhando para a cabeça de forma satisfeita, afirmou:

“É esta a cabeça que tão freqüentemente exclamava contra mim?”

Diz ainda a lenda que ela cortou seu dedo em um dos dentes de John Fisher, ferimento que demorou a ser curado e lhe fez permanecer com uma cicatriz pelo resto de sua vida.

Mesmo que a história não seja verdadeira, ela mostra que o povo via Ana Bolena como uma nova Herodias e o santo como um novo São João Batista, que deu sua vida pela indissolubilidade do casamento.

Para maior vergonha do Rei, Deus fez que a cabeça de Fisher permanecesse incorrupta. Após 14 dias os guardas tiveram que retirá-la para colocar em seu lugar a cabeça de Thomas Morus, decapitado em 6 de julho.

Em 17 de dezembro de 1538 o Papa Paulo III publicou a bula que excomungava Henrique e colocou a Inglaterra sob interdito. Uma excomunhão anterior do Papa Clemente VII havia sido suspensa.

* * *

Em 19 de maio de 1935 a Igreja canonizou o santo bispo de Rochester, fixando sua festa, junto de S. Thomas Morus, no dia 9 de julho. De São João Fischer disse Monsenhor R. L. Smith:

“Nunca existiu um sacerdote mais verdadeiro que esse homem de Yorkshire tomado dentre os homens e ordenado para os homens nas coisas que pertencem a Deus, para que pudesse oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Sua devoção no serviço de todos que eram dados aos seus cuidados, sua retidão de visão e de falar, seu amor por seu país e sua inabalável lealdade a Deus, tudo isso fez um caráter cuja delicadeza clamava aos homens de seus dias e manteve esse apelo pelos séculos. Um intelectual sem vestígio algum de orgulho, um bispo que sabia como governar sem arrogância, um conselheiro dos reis que sempre deu conselhos honestos, ele era todas essas coisas e muito além porque amava a Deus com toda a força de sua alma e amava o próximo por causa de Deus. Seus motivos não eram egoístas, sua visão era apurada, e na glória dessa visão ele andou sem hesitar o estreito caminho da verdade. ‘Bendito os puros de coração, pois eles verão a Deus”.