sexta-feira, 10 de julho de 2009

De São Thomas More: "Esta é a Fé Católica: a não ser que o homem creia, não poderá salvar-se”.

A seguir, transcrevo um excelente texto publicado em Fratres in Unum, de autoria de Michael Davies, sobre o martírio de São Thomas More, padroeiro deste Blog, São João Fisher, Bispo fiel ao Papa, e demais companheiros mártires da Inglaterra, quando da perseguição movida por Henrique VIII para a fundação do Anglicanismo. O texto é impressionante, de um realismo de detalhes estarrecedor. Mais do que isso, mostra o amor pela Fé Católica que tiveram aqueles santos homens, até a entrega total de si mesmos. Eles viveram aquilo de que falava o grande São Josemaría Escrivá, outro Padroeiro do En Garde!:
"Bebamos até a última gota o cálice da dor na pobre vida presente. - Que importa padecer dez, vinte, cinqüenta anos..., se depois vem o Céu para sempre, para sempre..., para sempre? E sobretudo - melhor do que a razão apontada - 'propter retributionem' [pela recompensa] -, que importa padecer, se se padece para consolar, para dar gosto a Deus Nosso Senhor, com espírito de reparação, unido a Ele na sua Cruz..., numa palavra: se se padece por Amor?" (Caminho, n.182)
Como viveram estes Santos Mártires da Inglaterra essa realidade nobre de "beber até a última gota o cálice da dor na pobre vida presente", para em tudo estarem conformes a Jesus Cristo, Ele que, embora Senhor de tudo e de todos, não rejeitou nem o sofrimento nem a morte. Eles nos deram o exemplo: aprendamos, imitemos!

Sejamos soldados fortes, toquemos a face ferida de Nosso Senhor no nosso sofrimento de cada dia, metamo-nos na chaga de Jesus Cristo até aprendermos a ser bons soldados Dele. Que o exemplo de São Thomas More, São João Fisher e companheiros mártires nos ajude a compreendermos esta grande realidade.

Segue o texto a partir de Fratres in Unum:



Na festa dos grandes Santos João Fischer e Thomas Morus, apresentamos a nossos leitores algumas antigas anotações feitas da obra de Michael Davies, Saint John Fischer, The martyrdom of John Fischer, Bishop, during the reign of King Henry VIII, The Neumann Press, Long Prairie, Minnesota, 1998.

* * *

A maneira com que o clero rivalizava entre si para ver quem fazia mais os caprichos do rei foi, talvez, o fato mais desgostoso de toda a história do catolicismo inglês. Os bispos foram os líderes na corrida para capitular. O decano e capítulo de São João, Londres, não só jurou, mas afirmou que Henrique era o único “a quem, sozinho, depois de Jesus Cristo nosso Salvador, nós devemos tudo”.

O juramento exigido das ordens religiosas era ainda mais duro que do restante do clero secular: deviam reconhecer o casto e santo casamento entre Henrique e Ana.

Esperava-se que tal juramento colocasse fim nas ordens religiosas da Inglaterra. Tal esperança foi vã:

“Se as ordens religiosas são vistas como o exército permanente do Papado, nenhum exército já se rendeu tão facilmente”, escreveu o Padre Constant.

Os monges que resistiram podem ser contados à mão. Em 20 de abril de 1535, John Houghton, Augustine Webster e Robert Lawrence, os priores da Charterhouse de Londres, Beauvale e Axelhome foram presos. Juntou-se a eles depois Richard Reynolds, tido como o monge mais sábio da Inglaterra.

Os padres disseram que eram capazes de aceitar tudo o que fosse permitido pela lei de Deus. [Thomas] Cromwell respondeu:

“Eu não admito exceções. Se a Lei de Deus permite ou não, vocês devem jurar sem qualquer reserva que seja, e devem observá-lo também”.

Os monges objetaram que a Igreja Católica havia sempre ensinado o contrário, e tiveram por resposta:

“Eu não me importo em nada com o que a Igreja manteve ou ensinou. Quero que vocês testifiquem por juramento solene que crêem e firmemente sustentam o que nós propomos: que o Rei é o chefe da Igreja da Inglaterra”.

No julgamento, os monges reafirmaram que a supremacia do Papa era instituída por Nosso Senhor. Dois dos jurados se negaram a condenar padres de tão radiante santidade, apesar de ameaças de padecer o mesmo que os monges. Ameaçado, o júri relutantemente considerou os monges culpados. Deveriam ser enforcados, pendurados e esquartejados.

São Thomas Morus e sua filha Margaret testemunharam a triste procissão da janela de sua cela. Lágrimas vieram aos seus olhos vendo a cena. Disse o santo à Margaret:

“Veja, vossa alteza não vê, Meg, que esses benditos padres estão agora alegremente indo à morte como noivos a um casamento”.

Quando jovem, Morus aspirou à vida cartuxa, mas depois decidiu que esta não era sua vocação. Em sua grande humildade disse o santo que Deus estava chamando os monges à vida eterna como prêmio por darem suas vidas em grandes dificuldades, enquanto ele era indigno de tal graça e, portanto, era condenado a uma vida mais longa na terra.

Num ato de barbárie sem precedentes, os monges foram executados com seus próprios hábitos, já que se fossem culpados por traição deveriam ser reduzidos a estado leigo e executados com roupas civis; uma afronta à Igreja nunca vista na Inglaterra católica.

“Ao beato John Houghton Deus dignou-se conceder o sinal de honra em ser o primeiro homem desde os tempos pagãos a sofrer a morte na Inglaterra por ser católico. Após amavelmente abraçar o carrasco, que suplicou seu perdão, o santo mártir entrou na carroça que ficava debaixo da forca; e lá, à vista da multidão, lhe foi perguntado novamente se ele se submeteria à lei do reino, antes que fosse tarde. Nada amedrontado, respondeu: ‘Eu tomo Deus todo-poderoso por testemunha e suplico a todos aqui presentes para atestar por mim no terrível perigo de julgamento, que estando para morrer em público, declaro que neguei-me a obedecer a vontade de Sua Majestade o Rei, não por obstinação, malícia ou espírito de rebeldia, mas somente por medo de ofender à suprema Majestade de Deus. Nossa Santa Mãe decretou e impôs de outra forma que decretaram o Rei e o Parlamento. Estou, portanto, vinculado em consciência e pronto e desejoso a sofrer qualquer tipo de tortura do que negar a doutrina da Igreja. Rezem por mim, e tenham misericórdia de mim, irmãos, de quem fui indigno Prior”.

Rezando sua última oração, disse ele o Salmo 30:

“Em vós, Senhor, coloquei minha esperança; não seja eu desamparado: dai-me a vossa justiça”

Uma grossa corda foi escolhida, por medo de que ele fosse estrangulado e morresse muito rapidamente. A carroça foi retirada e o bom monge, que havia feito tanto bem a muitos e mal a ninguém, estava suspenso como um malfeitor. Após, a parte mais cruel: a corda foi cortada e o corpo caiu no chão, mas John não estava morto. O carrasco enfiou um longo e apavorante garfo, retirou seus intestinos e os queimou num fogo preparado para esta hora.

O pobrezinho estava consciente o tempo todo e enquanto sofria, ouvia-se clamar:

Oh Santíssimo Jesus, tende misericórdia de mim nesta hora!”.

Quando o carrasco colocou sua mão no coração, o beato mártir falou novamente:

“Ó meu bom Jesus! O que vós fareis com meu coração?”

A batalha chegara ao fim. John Houghton foi fiel até o fim e ganhou a coroa da vida.

A todos os mártires era oferecido o pleno perdão se renunciassem sua Fé católica, mas todos preferiram a morte à apostasia. O coração de John Houghton foi esfregado em sua face. Os corpos foram esquartejados e depois pendurados em diversas partes de Londres.

* * *

Fisher recebeu a mesma sentença que os monges cartuxos.

“Meus senhores, estou aqui condenado diante de vós por alta traição por negar a supremacia do Rei sobre a Igreja da Inglaterra, mas por qual ordem de justiça deixo a Deus, que perscruta tanto a consciência de Sua Majestade como as vossas; não menos, sendo considerado culpado como consta nos termos, estou e devo estar satisfeito com tudo o que Deus enviará, cuja vontade eu inteiramente me entrego e submeto. E agora, para dizer claramente o que penso quanto a essa matéria da supremacia do rei, penso realmente, e sempre pensei, e declaro agora pela última vez, que Sua Majestade não pode justamente clamar qualquer supremacia sobre a Igreja de Deus como ele agora clama; nem fora visto ou ouvido que qualquer príncipe temporal anterior a estes dias presumisse a esta dignidade; entretanto, se o Rei irá agora se aventurar em proceder esse caso estranho e raro, então sem dúvidas ele incorrerá na grave ira do Onipotente, para grande dano de sua própria alma e de muitos outros, e para futura ruína deste reino a ele submetido; de forma que rezo para que Sua Majestade lembre-se em bom tempo e recupere o bom conselho para preservação de si mesmo, de seu reino e para tranqüilidade de toda a Cristandade”.

Com a sentença, muitos dos que lá estavam ficaram com lágrimas nos olhos. A sentença foi mudada pelo rei para a guilhotina, pois temia-se, por conta de sua saúde, que o bispo morresse a caminho de forca. O alívio do bispo em ver seu caso resolvido era tamanho que até conseguiu caminhar na volta para a torre, quando grande multidão o acompanhava como que numa procissão.

Uma notícia contemporânea afirmava que o bispo parecia voltar de uma festa; além disso, seu comportamento e gestos mostravam uma grande felicidade interior.

* * *

Toda depressão de alma que acompanhava o santo havia acabado. Na manhã do dia 22 de junho o tenente veio ao pé de sua cama e o pegou dormindo, trazendo a ele a notícia de sua execução. Quando soube que o horário marcado era às 10 da manhã, o Santo respondeu:

“Bem, então eu vos peço que me deixeis dormir uma ou duas horas, pois devo dizer que não dormi muito essa noite; e ainda, para dizer a verdade, não foi por algum medo da morte, mas por conta de minha grande enfermidade e fraqueza”.

E ele se virou e foi dormir novamente.

Quando foi acordado de novo, pediu ajuda para se levantar e para retirar a camisa de pêlos que ele sempre vestiu, [como forma de penitência], colocando uma camisa branca e suas melhores vestes.

Vossa senhoria não percebe que esse é o dia de nosso casamento e que nós devemos, portanto, usar o branco para a solenidade do casamento?”

Saindo da Torre, encostou-se numa parede para se apoiar e abriu seu Evangelho, dizendo em vós alta:

“Esta é a vida eterna: que eles possam conhecer-Vos, o único verdadeiro Deus, e a Jesus Cristo que Vós enviastes. Eu vos glorifiquei na terra: eu terminei o trabalho que Vós me destes para fazer” (João, 17:3-4).

Fechando o livro, disse:

Aqui está todo o conhecimento necessário para o fim de minha vida”.

Durante todo o percurso para a torre, seus lábios moviam-se em oração. Fez questão de não precisar de ajuda para chegar até o patíbulo.

O sol brilhava forte. Chegando, o carrasco, como de costume, ajoelhou-se pedindo perdão, no que o Cardeal respondeu:

“Eu vos perdôo de todo o coração e confio em Nosso Senhor que Ele me verá morrer vigorosamente”.

Foi dada a ele a última chance de reconhecer a supremacia do Rei, no que o santo respondeu:

“Povo cristão, eu venho até aqui para morrer pela fé na Igreja Católica de Cristo, e eu agradeço a Deus pois até agora minha coragem tem me servido bem para tal, de forma que até agora eu não temi a morte; portanto, desejo que me ajudeis e que me assistais com vossas orações, para que bem no momento e instante da pancada de minha morte eu então não me acovarde em qualquer ponto da Fé Católica por medo; e eu rezo a Deus para que salve o Rei e o reino, mantenha Sua Santa Mão sobre ele e lhe dê bom conselho”.

Por fim, ficou de joelhos, rezou o Te Deum e o salmo Em Vós Senhor coloquei minha confiança. Depois avisou o carrasco para vendar seus olhos, abaixou-se e colocou seu pescoço no bloco, no que o carrasco arrancou sua cabeça num único golpe.

Uma divina ironia fez com que a morte de São João Fisher ocorresse em 22 de junho, festa de Santo Albão, primeiro mártir da Bretanha. A roupa do condenado era uma das gratificações do carrasco, ficando o corpo do condenado deitado nu até que uma boa alma se apiedasse e o cobrisse.

O corpo foi enterrado nu, sem reverência alguma ao santo bispo. Os fiéis começaram a vir em grande número venerar o grande santo, e então o bispo foi transportado para a Igreja de São Pedro ad Vincula, próximo ao corpo de São Thomas Morus, que foi sentenciado em 1º de julho. Após a sentença, Morus afirmou abertamente que nenhum leigo poderia usurpar aquilo que foi dado a São Pedro por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Numa carta a Cromwell quinze meses antes, Morus expressou a Fé pela qual ele e Fisher morreriam:

“Esta é a Fé Católica: a não ser que o homem acredite, não poderá salvar-se”

São Thomas Morus foi executado em 6 de julho com a mesma coragem do santo bispo e dos cartuxos. Testemunhas oculares afirmam que ele demonstrou alegria diante da decapitação, afirmando que morria fiel ao Rei e como verdadeiro Católico diante de Deus.

A cabeça de São João Fisher foi colocada na ponte de Londres. Uma lenda diz que Ana Bolena foi a primeira a expressar deseja de vê-la. Olhando para a cabeça de forma satisfeita, afirmou:

“É esta a cabeça que tão freqüentemente exclamava contra mim?”

Diz ainda a lenda que ela cortou seu dedo em um dos dentes de John Fisher, ferimento que demorou a ser curado e lhe fez permanecer com uma cicatriz pelo resto de sua vida.

Mesmo que a história não seja verdadeira, ela mostra que o povo via Ana Bolena como uma nova Herodias e o santo como um novo São João Batista, que deu sua vida pela indissolubilidade do casamento.

Para maior vergonha do Rei, Deus fez que a cabeça de Fisher permanecesse incorrupta. Após 14 dias os guardas tiveram que retirá-la para colocar em seu lugar a cabeça de Thomas Morus, decapitado em 6 de julho.

Em 17 de dezembro de 1538 o Papa Paulo III publicou a bula que excomungava Henrique e colocou a Inglaterra sob interdito. Uma excomunhão anterior do Papa Clemente VII havia sido suspensa.

* * *

Em 19 de maio de 1935 a Igreja canonizou o santo bispo de Rochester, fixando sua festa, junto de S. Thomas Morus, no dia 9 de julho. De São João Fischer disse Monsenhor R. L. Smith:

“Nunca existiu um sacerdote mais verdadeiro que esse homem de Yorkshire tomado dentre os homens e ordenado para os homens nas coisas que pertencem a Deus, para que pudesse oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Sua devoção no serviço de todos que eram dados aos seus cuidados, sua retidão de visão e de falar, seu amor por seu país e sua inabalável lealdade a Deus, tudo isso fez um caráter cuja delicadeza clamava aos homens de seus dias e manteve esse apelo pelos séculos. Um intelectual sem vestígio algum de orgulho, um bispo que sabia como governar sem arrogância, um conselheiro dos reis que sempre deu conselhos honestos, ele era todas essas coisas e muito além porque amava a Deus com toda a força de sua alma e amava o próximo por causa de Deus. Seus motivos não eram egoístas, sua visão era apurada, e na glória dessa visão ele andou sem hesitar o estreito caminho da verdade. ‘Bendito os puros de coração, pois eles verão a Deus”.

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