terça-feira, 28 de julho de 2009

Leituras indicadas a um bom soldado (nº 3) - "Ortodoxia", de G.K.Chesterton

Eu noticiei há alguns dias no Direto da Sacristia que será aberto o processo de beatificação do grande apologista e escritor inglês, G. K. Chesterton. A notícia repercurtiu imensamente, nos mais diversos meios, dada a extensão do pensamento de Chesterton, sua atualidade, seu grande serviço à Igreja e, principalmente, a paixão que o apologista nos provoca.

G.K. Chesterton foi, sem dúvida, uma das maiores mentes do século passado. Alguns o classificavam como um "Padre da Igreja" dos tempos modernos. Ninguém menos que o Papa Pio XI chegou a ser seu fã.

A atuação de Chesterton foi vasta e surpreendente. Foi um dos viu com pioneirismo como o homem do século XX gosta de romances e mistério, ingressando num apostolado de defesa da Fé Católica por meio de romances policiais: seu personagem, o Padre Brown, sacerdote e detetive, é hoje conhecido em todo o mundo. Atuou ainda como Teólogo, Historiador e Filósofo. Etienne Gilson, respeitável filósofo tomista, um dos maiores seguidores e estudiosos do Doutor Angélico, disse que, mesmo tendo dedicado uma vida inteira à São Tomás de Aquino, nunca escreveria uma obra tão clara sobre ele como o "Santo Tomás de Aquino" que Chesterton escreveu dando apenas uma olhadinha em uma dúzia de obras (sim! isto mesmo! pediu apenas uma dúzia de obras e deu uma olhada nelas!). "Chesterton é desesperador. Durante toda a minha vida estudei Santo Tomás e nunca poderia ter escrito um livro como o seu. Só um gênio é capaz de tal façanha", disse Gilson.

Chesterton era capaz de se embater epopeicamente com qualquer um que negasse a existência de Deus e a necessidade da religião cristã ao homem, e fazia tudo isso com muito bom humor, levando o auditório aos risos e o herege à vergonha. Mas depois convidava o adversário para comemorar a sua própria derrota no pub mais próximo, acompanhados de charutos e cerveja.

O livro mais conhecido de Chesterton é a sua auto-biografia espiritual, "Ortodoxia". E é ele que indicamos hoje. A Editora Mundo Cristão - curiosamente, uma Editora protestante - publicou em 2008 uma Edição comemorativa do centenário da obra. Segue a referência completa: CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

Chesterton relata neste livro sua busca pela verdade, procura que, passando de erro em erro (ou acerto em acerto), levou-o à Fé Católica, que teve até o fim de sua vida como a única Fé verdadeira e capaz de dar respostas às questões mais profundas do homem. O britânico afirma que tentou construir uma nova heresia a partir de si próprio, mas quando deu-lhe os últimos retoques, viu que era apenas a ortodoxia, e a ortodoxia católica!
"O autor tem o propósito de tentar explicar não se a fé cristã pode ser abraçada, mas como ele pessoalmente passou a abracá-la. [...] [Este livro] Trata primeiro de todas as solidárias e sinceras especulações pessoais do autor e depois do dramático estilo em que elas são de súbito respondidas a contento pela teologia cristã. O autor vê isso como algo que leva a um credo convincente. Mas se não chegar a tanto, trata-se no mínimo de uma repetida e surpreendente coincidência", afirma em seu Prefácio (p.15).
Em "Ortodoxia", Chesterton combate com maestria as modernas heresias: o determinismo, o evolucionismo radical, o relativismo, o materialismo... numa palavra, para resumir todos os "ismos": o modernismo.

Chesterton não aceita a idéia tão em vigor nos círculos católicos de hoje - imbuídos de modernismo - de que a ortodoxia é enfadonha, chata, um fardo; seria preciso, para os modernistas de hoje, sempre estar evoluindo e se "renovando"; a Igreja do futuro é extaamente como ela não é hoje (e poderia vir, para eles, a não ser nada também). Vemos isso nas Missas, onde o que vale é mudar, mudar e mudar, mas nunca obedecer, obedecer, obedecer; vemos nos sacerdotes e Bispos que acusam os católicos ortodoxos de "tradicionalismo estéril" ou "conservadorismo". Chesterton lhes diria que estão errados.
"Essa é a emocionante aventura da Ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de falar da ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante como a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escutlura e a precisa da aritmética" (p.167).
Contra estes, que tolamente afirmam ser a ortodoxia enfadonha e chata, Chesterton ensina-nos o real valor da fidelidade à Doutrina perene da Igreja, bimilenar e sempre, sempre atual. Chesterton os mostra o verdadeiro tradicionalismo. E como ele é estimulante! Como é emocionante ser tradicional e caminhar na rota contrária dos modismos e imbecilidades do mundo! Porque seguir na direção da moda é fácil demais; ir contra a corrente é que é difícil, e por isso mesmo emocionante.
"A Igreja ortodoxa nunca tomou a rota fácil ou aceitou as convenções; a Igreja ortodoxa nunca foi respeitável. Teria sido mais fácil ter aceitado o poder terreno dos arianos. Teria sido mais fácil, durante ocalvinista século XVII, cair no abismo infinito da predestinação. É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outro espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo - isso teria sido de fato simples. É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonos heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé" (p.168).
Palavras de peso para os Bispos deste Brasil, para os sacerdotes modernistas, adeptos de modismos passageiros e estéreis, para os católicos de CEB's ou de lágrimas sentimentalistas durante shows de padres cantores.

Leiam Chesterton, senhores, e aprendam a ser realmente emocionantes - sendo tradicionais!

3 comentários:

  1. O simples fato de se falar na beatificação de Chesterton encheu os meios CATÓLICOS (que o conhecem e amam)de alegria e riso (como ele gostaria).
    Comentando o final do texto, gostaria de dizer somente uma coisa; enquanto muitos (que hoje já são poucos) ainda esperam ter Dom Helder, Ir. Dorothy, Santos Dias, Chico Mendes, Herzog e outros sobre os altares (que já incluem Oxalá e alguns derivados), nós CATÓLICOS ostentaremos Chesterton, já possuímos São Josemaría e com milhares de outros (na verdade com todos!) percebemos que a carruagem celestial não está sem Cocheiro.

    ResponderExcluir
  2. Belíssimas palavras, Diego!

    Amém para o que dissestes!

    []s!

    ResponderExcluir
  3. Diego, Taiguara,

    Estou com vocês e não abro.

    Ressaltar Chesterton contrasta enormemente com as menções aos "mártires" forjados e exaltados pela esquerda festiva com generoso apoio de clérigos como Fábio de Melo e seu ídolo frei Betto.


    []'s

    Eduardo Araújo

    ResponderExcluir