sábado, 26 de setembro de 2009

Modernidade: Sodoma, Gomorra, Babilônia...

Inicialmente, peço desculpas aos leitores do En Garde! por não ter postado nada ontem, sexta-feira (25/09); faltou-me o tempo. A postagem que deveria sair ontem, redijo-a hoje (26/09).

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Tive em minhas mãos esta semana e pude passar uma vista em alguns capítulos no livro "Juventude em Crise ou Sociedade em Crise?", de Irene Tavares de Sá, publicado pela Editora Renes (a mesma Editora que publicou a Nova Enciclopédia Católica), do Rio de Janeiro. Não havia data, mas era um livro já antigo, desgastado. Provavelmente da década de 70, não sei ao certo.

Em algumas páginas me detive com maior atenção e uma delas até fotocopiei, visando justamente a comentar no En Garde!

Muitos se perguntam que rumos tomará esta juventude (perguntavam isto há dois milênios; perguntavam na época do livro e ainda hoje perguntam). Mas nos dias atuais é espantoso a postura dos jovens diante da vida: a desvalorização de suas consciências e de seu corpo, a indiferença em relação a tudo - a família, o trabalho, os estudos -, o hedonismo exarcerbado, a criminalidade crescente (tanto que se cogita a diminuição da maioridade penal) e a banalização da morte e da violência entre jovens são alguns dos fatores que ocasionam este espanto.

A tese da autora com relação a isso é que não é a juventude que está em crise, mas a sociedade em si; a juventude, sendo parte da sociedade, entra em crise com ela.

A Igreja vem dizendo isso há muito tempo. Os Papas têm denunciado constantemente a crise da Modernidade em suas Encíclicas; os documentos magisteriais dos séculos recentes, focalizando tanto a questão moral, p. ex., são prova disso.

A crise da Modernidade é uma crise religiosa, de Fé. A Revolução Protestante de 1517 disse "não" à Igreja Católica de Cristo, e assim não soube mais quem era Deus. A Revolução Francesa disse "não" a Deus, e não soube mais quem era o homem. A Revolução Comunista só pôde ocorrer justamente porque não se sabia mais quem era o homem: haveria homens ou um grande sujeito coletivo? Haveria homem, ou haveria Estado? O que há, afinal?

Tudo a partir da negação da Igreja e de Cristo. É a negação da Fé, é o dizer "não" a Deus que leva o homem ao caos; assim ocorreu com Adão e Eva, sua desobediência e a entrada do pecado e da morte no mundo.

O eminente pensador católico brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira constatou isso: no sue magistral Revolução e Contra-Revolução:
"As muitas crises que abalam o mundo hodierno - do Estado, da família, da economia, da cultura, etc. - não constituem senão múltiplos aspectos de uma só crise fundamental, que tem como campo de ação o próprio homem. Em outros termos, essas crises têm sua raiz nos problemas de alma mais profundos, de onde se estendem para todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e todas as suas atividades" (p.3).
Questionando-se sobre a banalização da sexualidade e do corpo nos tempos modernos com parte desta crise da sociedade e da juventude - uma crise do homem, essencialmente -, Irene Tavares de Sá sustenta:
"Não adianta enterrar a cabeça na areia e negar a realidade. Está tudo aí, patente, ao alcance de qualquer criança, na imprensa, na tevê, no cinema, nos 'posters', nas letras das canções, nas estórias em quadrinhos - o sexo está em tudo... e garotas de doze anos querem experimentar de tudo... Esse fluxo teve várias origens, mas hoje o paladar parece, com o tédio, ter atingido o pont ode saturação, partindo para as aberrações (homossexualismo, indumentária unissex, etc.). Tudo foi saturado de 'sex-appeal' - a arte, o comércio, a indústria - atingindo as raias da pornografia massificada. Países de mentalidade aparentemente burguesa organizam exposições 'pornô'..." (p.86).
Faz-se mister notar, especialmente, a constatação da autora de que o apetite sexual das pessoas entendiou-se e hoje parte para as aberrações. Com efeito, uma sexualidade mal orientada perde seu sentido, torna-se vazia, não é uma realidade realmente sagrada e que dirige o homem a Deus, com o próprio Criador estabeleceu. Quando os homens desvalorizam sua sexualidade, retiram o sexo do seu devido lugar e momento, desvinculam-no do amor - pois o sexo não é outra coisa que não a consumação concreta do amor -, o sexo se torna vazio, tedioso, maçante.

O paladar vai em busca de outras experiências que ultrapassam os limites do sexo, que transformam o homem num animal. As pessoas hoje querem perder a virgindade com 14 anos - na melhor das hipóteses! - e aos 18 já estão praticando o homossexualismo ou o bissexualismo, na falta do que fazer de novo; frequentam clubes de fetichismo, misturam prazer com dor em práticas de sadomasoquismo, até consumam o ato com animais - a chamada zoofilia -, o que é o fundo do buraco para um ser humano que deixou de ser humano e animalizou-se realmente; a zoofilia é a expressão concreta e fática da animalização degradatória do homem. E quiçá sejam estas as piores práticas, por mais horríveis e espantosas que sejam... Mas a criatividade do "homem" moderno para o mal é tão impressionante, que eu não me surpreenderia se diante do tédio sexual ele fosse capaz de criar coisas ainda mais horríveis, que eu nem consigo imaginar...

Eis os frutos da "liberdade" sexual. Exigiram-na tanto os psicólogos freudianos apegados à libido, exigiram-na tanto os sociólogos, as feministas, os marxistas culturais e liberais extremados; e hoje, que temos? Um bando de animais. Talvez Darwin quisesse estudar o momento atual como a regressão das espécies, o retorno à animalidade.

Irene Tavares de Sá constata, então, que a "liberdade" sexual tão exigida e às vezes até imposta - quantos, por desejarem viver a castidade e não serem como animais, são ridicularizados nos dias atuais? É um novo martírio - não foi solução para o suposto homem angustiado e sem felicidade dos séculos anteriores, séculos da repressão cristã, que os liberais tanto condenavam:
"Enquanto certa corrente psicanalítica não consegue explicar por que, a despeito da atual liberdade sexual, persistem o casos de frigidez, impotência e outros distúrbios sexuais tão freqüentes quanto no passado... Afirmam alguns que a moral sexual é produto cultural decorrente duma sociedade repressiva, que impôs o trabalho como obrigação e o prazer como prêmio. No entanto, hoje, que o prazer se tornou 'obrigatório', a sociedade está cheia de neuróticos, angustiados e tarados... Autoridades em psicologia preocupam-se com essa contradição, e a libertação dos instintos não parece ter trazido satisfação e equilíbrio nem ao homem, nem á mulher, nem à sociedade..." (p.86).
Um sociedade cheia de estupradores, pedófilos, gente se suicidando, com vazio na vida e sem felicidade... é a mesma sociedade da "liberdade" sexual, da massificação do prazer e do sexo: estranho, não?

Não, não é estranho. Desvincula-se o sexo do amor, cria-se uma barreira para a felicidade. Resta vazio, desolação. O homem se animaliza, vira um ser irracional, não correspondente com a sua natureza humana: não surpreende que se torne um ser mórbido, desolado, suicida, tarado ou louco - ele está em desordem, não corresponde ao que é.
"[A]s estatísticas advertem que a felicidade não cresceu na razão direta da liberdade sexual (libertinagem). O 'amor' continua um dos anseios mais profundos do homem e da mulher e a parte que o sexo nêle tem nunca se tornará um substituto", afirma a autora.
Com efeito, o homem precisa é do amor, não do sexo sem amor. E amor não é emoção, não é sentimentalismo ignóbil, ou o desejo fulgurante e excitante meramente biológico. Isso não é amor. Amor é doação: é não viver mais para si, é viver para o outro. Um amor que busca somente o prazer próprio não é amor: é, no máximo, uma paixão narcisista e egoísta por si mesmo. E este é o "amor" dos modernos: egoísta, orgulhoso, narcisista. Depois não entendem o namorado que seqüestra a namorada, os casamentos crescentemente terminando em divórcio, fulano que se suicida quando descobre a traição...

A crise do homem atual, por ser uma crise de Deus, é também um crise de amor. O homem moderno, por não entender o Deus que se doa numa Cruz por amor - não só não entendê-lo, mas rejeitá-lo - também não entende o amor, não sabe amar, não sabe doar-se. Não ama. Daí usar o outro como objeto rude de prazer carnal... Foi para responder a esta crise do amor que o Papa Bento XVI decidiu começar seu Pontificado com uma Encíclica sobre o amor, falando do verdadeiro amor: a Deus Caritas est.

O amor é que satisfaz o homem, porque Deus é amor. O sexo sem amor deixa o homem vazio, animaliza-o, por isso: não volta o homem a Deus. E toda criatura, toda realidade temporal, deve voltar o espírito do homem à realidade sobrenatural de Deus, se não é vazia.

Não adianta, pois, buscar sexo a toda hora e com todo mundo pensando que isto vai satisfazer o homem: não satisfaz, e por isso o homem busca cada vez mais aberrações animalescas; não satisfaz porque falta amor. O homem moderno tem que reaprender o que é o amor, antes de buscar o sexo, essencialmente um ato de amor. E o homem moderno só reaprenderá o que é o amor quando olhar para Cristo, doando-se por amor na Cruz. Somente no amor a Deus e ao próximo, na doação completa e incondicional, como Cristo na Cruz, o homem será feliz realmente. O sexo só tem lugar, pois, no contexto de uma doação completa e integral, uma doação de amor: e onde há isso em maior perfeição que no matrimônio, pelo qual homem e mulher se doam diante de Deus e da Igreja por toda a vida, em compromisso de amor para toda a eternidade? O sexo, pois, só será completo e verdadeiro, realização do amor, no matrimônio.

Interessante é a condenação que fazem os hominídios da Modernidade da repressão dos séculos passados, da repressão da Igreja, para justificar sua libertinagem. E condenando o passado, regrtidem à animalidade como se isto fosse uma conquista! Não! A animalidade é que é um retrocesso, uma derrota, um fracasso. O ser homem realmente, estar de acordo com a natureza humana, é que é uma vitória da humanidade. Se ser homem realmente é o que os modernistóides chamam de repressão, ser livre é não ser homem, é ser animal? Não há lógica nisso.

Assim, constata a autora:
"O equilíbrio, a virilidade, a feminilidade e a satisfação das conquistas. A simples volta à animalidade é certamente uma limitação para o ser humano. Se Deus fêz o homem 'à sua imagem e semelhança', qualquer retorno à animalidade é uma degradação..." (p.87).

Com efeito, é preciso recuperar uma verdadeira noção de virilidade e de feminilidade. Ser macho realmente não é sair como um macaco irracional "pegando" todas; ser mulher não é desvalorizar o próprio corpo e se oferecer para o primeiro - ou a primeira... - que apareça. Isso é ser animal, não homem ou mulher. Regredir à animalidade é uma derrota da Modernidade; é preciso recuperar o verdadeiro sentido de virilidade e de feminilidade, sem os quais não se poderá responder à crise do homem moderno. No En Garde! tenho focado muito nisso ultimamente (aqui, aqui, aqui também e ainda aqui).

Para concluir, Irene Tavares de Sá reconhece a necessidade de uma pedagogia que eduque o ser humano para o amor e o vacine contra a banalização do sexo, do corpo e do prazer; esta pedagogia deverá salientar o caráter sagrado do sexo, a grandeza do amor e a sua necessidade para o homem; é uma pedagogia essencialmente cristã:
"A pedagogia moderna reconhece a necessidade duma orientação mais esclarecida dos jovens nesse acidentado terreno e sabemos que tôda ignorância, tabus e hipocrisia são contraproducentes. Uma pedagogia cristça vai mais longe, e aponta a sacralidade do sexo e a grandeza do amor no plano conjugal, sem desconhecimento de tôdas as dificuldades que a tese encerra, numa sociedade que só aponta os outros aspectos de duas realidades tão importantes no plano natural e sobrenatural. Sabe também dos problemas e situações complexas que envolve, e indica o diálogo sincero e competende com a juventude como solução básica. O exemplo também é fundamental..." (p.87).
Somente nesta pedagogia é possível modificar o rumo que tem tomado nossa sociedade moderna: o mesmo rumo de Sodoma, Gomorra e Babilônia, o rumo do caos, da degradação, da decomposição. O fim destas sociedades todos conhecem. Aliás, o termo de toda sociedade começa com a degradação moral do homem em seu próprio seio, sempre e invariavelmente; é incontestável. Para salvarmos a nossa, é preciso primeiro salvarmos a nós mesmos, vivendo ,em primeiro lugar, de acordo com a nossa dignidade de seres humanos - homens e mulheres - e de cristãos.

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Não li o livro todo, apenas algumas partes, mas me pareceu muito bom; fica a indicação para quem quiser lê-lo. Pelos trechos aqui comentados, é possível perceber a profundidade e a seriedade com que a autora trata das questões concernentes à crise moderna na sociedade e na juventude, uma crise do homem.

A solução desta crise só poderá ser encontrada na redescoberta do amor a partir de Cristo, pois só Ele "revela o homem ao próprio homem" (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past. Gaudium et Spes, n.22).

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Já que a postagem de hoje sai num sábado e sendo ela já bastante extensa, publicarei a próxima postagem somente na terça-feira (29/09) - não na segunda (28/09) - para que os leitores do En Garde! tenham tempo de usufruir desta.

En Garde, soldat!

2 comentários:

  1. "Amor é doação: é não viver mais para si, é viver para o outro. Um amor que busca somente o prazer próprio não é amor: é, no máximo, uma paixão narcisista e egoísta por si mesmo. E este é o "amor" dos modernos: egoísta, orgulhoso, narcisista".

    Aqui você resumiu tudo... parabéns pelo texto, amei !

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  2. Obrigado, caríssima!
    Fico feliz que tenhas gostado! [;)]
    Com efeito, esse é todo o problema do "amor" da Modernidade.

    Grande abraço!

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