terça-feira, 6 de outubro de 2009

"Nessa terra parece que ninguém diz o que pensa" (Trecho de "Fui Estudante em Moscou")

O texto a seguir foi transcrito do livro Fui Estudante em Moscou, de Agenor Tonussi (2ª ed., Rio de Janeiro: Laudes, INL, 1971); ele dá uma idéia sucinta das incoerências de um regime comunista e da domesticação a que os cidadãos são submetidos sob um governo esta laia; depois comentarei alguns detalhes deste texto; não faço agora por falta de tempo. Segue:

"Alguns brasileiros antigos em Moscou deram-me as melhores indicações paar encontrar môças russas, e freqüentemene eu ia passear no Boulevard Danilóvski, onde sempre haveria companhia. Logo nos primeiros dias, fiquei conhecendo môças, e alguns presentes ocidentais que eu trouxera deram-me prestígio. Avisaram-me logo que tomasse cuidado, pois muitas entre elas eram espiãs e estavam ali com a missão de obter informações de alunos da Universidade. Jorge fazia-me companhia muitas vêzes, quando interrompia seus estudos de geologia, e era o mais preocupado em alertar-me para o meu excesso de sinceridade. Entre as môças, várias falavam línguas estrangeiras, o que não é raro na URSS. A preocupação delas era sempre saber coisas sobre o Ocidente.

Tôda espécie de perguntas que se possa imaginar foi-me feita: Como vivíamos no Brasil, como eram a França e a Europa Ocidental e, sobretudo, perguntas sôbre os Estados Unidos, as quais eu nunca poderia responder, por nunca ter estado lá. O mais curioso era observar a idéia que fazia sobre a influência americana no Brasil; mais tarde eu perceberia que se tratava de um conceito generalizado. A maioria dos russos está convencida de que soldados americanos ocupam fisicamente nosso páis, e nenhuma autoridade é capaz de mover-se nos pequenos detalhes, sem ordens de Washington.

A essas alturas, meu sentimento patriótico ultrapassava minah fidelidade socialista, contra todos os princípios do marxismo; e, muitas vêzes, eu me irritava nos diálogos. Em uma delas, com a cabeça perdida pelos desaforos que estava ouvindo, expliquei que o Brasil não era uma Hungria ou uma Polônia, com governos sediados em uma capital estrangeira.

Essa noite, quando voltei para meu quarto, a cabeça estava outra vez sôlta em pensamentos. Senti que uma reação humana e quase inconsciente havia pôsto abaixo a minah formação socialista, e fiquei a pensar na fragilidade da doutrina que esquece êsses 'defeitos' naturais do homem e suas reações espintâneas.

Também por isso eu pensava na alegria daquelas môças ao receber presentes ocidentais. Afinal, haviam sido educadas no mundo socialista, desde seu nascimento. Meus defeitos ainda poderiam ser por falta de formação, mas isso não se poderia passar com cidadãos russos; e elas não constituíam exceções. Se fôssemos considerá-las inimigas do povo, poucos soviéticos sobrariam como didadão locais. Afinal, não ocmecei a pensar em se tudo aquilo não era um enorme jôgo de faz-de-conta, com milhares de pessoas a enganarem-se mutuamente e a demonstrarem sentimentos e reações que não tinham; e todos, incapazes de dizer ou até de pensar a verdade, porque haveria uma discordância com os ensinamentos dogmáticos de Marx e Lênin. Assim se tornou sério o primeiro grande atrito que tive na Universidade, com um professor chamado Nikolai.

O Professor chamou-me para admoestar-me porque eu viera em dias diversos à Universidade com diferentes ternos. Na realidade, eu tinha apenas cinco ternos, e êle me falava como se eu fôsses proprietário de um enorme guarda-roupas. Expliquei-me, dizendo que trouxera para a URSS tôdas as minhas melhores roupas, e isso só demonstrava meu entusiasmo pela viagem, e o fato de querer ficar aqueles cinco ou seis anos necessários na Universidade. Além disso, eu ganharia dois ternos de minha família, quando saíra do Brasil. O professor replicou que eu estava tentando levar uma vida burguesa em Moscou, e devia perceber que meus colegas estavam todos mal vestidos, e raramente usavam gravatas. Continuei argumentando que meus ternos eram baratos e comprados prontos em lojas no Brasil, e não indicavam qualquer padrão alto de vida. Contei-lhe o início da minha vida, irritado por ter sido chamado de burguês. Nada adiantou, e continuavam as admoestações, com a aprovação dos colegas de sala. Eu então perdi a cabeça, e disse ao professor que tudo aquilo era uma farsa.

Lembrei-lhe que os colegas estavam sempre querendo comprar gravatas de quem chegasse do Ocidente, e todos tinham melhores roupas que deixavam escondidas. Na prática, quando muito, inveja, e a prova disso era que muitos estudantes do PC [Partido Comunista] traziam objetos como contrabando para vendê-los, e com o dinheiro compravam coisas caras. Chamavam-me d burguês, mas eu seria incapaz de fazer isso.

Além disso, havia muitas irregularidades conhecidas entre estudantes, rapazes e môças. Uma estudante brasileira, por exemplo, chamava a atenção em tôda a Universidade por usar os mais caros perfumes franceses e vestir-se como um manequim; no entanto era estimada e elogiada pelos professôres e pelos membros do PC, porque era rica, fizeram a viagem às suas custas e seus pais financiavam o PC no Brasil e provàvelmente até amigos do Agildo Barata, antigo 'Ministro das Finanças' do PC brasileiro; e um rapaz, antigo revisor do Estado de São Paulo, o Sérgio Guedes, tinha pelo menos três vêzes mais ternos do que eu, e não ligavam porque êle era do Partido; outros usavam anéis de ouro, pedras, enquanto eu nunca tivera nada de ouro comigo; e muitos membros do PC não hesitavam em comprar e vender jóias entre si, com o objetivo de fazer dinheiro. De tempos em tempos, os alunos eram autorizados a encomendar do Brasil, para uso pessoal, 5 quilos de mercadoria, que parentes mandavam. Deveriam ser rigorosamente para uso próprio. Os que tinham dinheiro escondido compravam a 'vez' de outros colegas, para, em nome dêles, 'importar' objetos, principalmente femininos (quanto eram môças), que seriam vendidos, e com boa margem de lucro. Tudo isso se fazia e ninguém reclamava, pois sempre ocorria com os comunistas. Era um absurdo que me viessem chamar a atenção, quando meu comportamente era mais digno que o dêles.

Terminei o assunto dizendo que tudo aquilo estava começando a parecer uma gigantesca farsa, e lembro-me de ter dito que 'nessa terra parece que ninguém diz o que pensa'".
(pp. 71-75).

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