domingo, 21 de fevereiro de 2010

Liberalismo e Conservadorismo em Theodore Meyer Greene

Theodore Meyer Greene foi professor de Humanidades no Scripps College (Claremont, Califórnia). Escritor lúcido e conferencista disputado, em 1949 proferiu três palestras no Instituto Rushton (Birmingham, Alabama), que deram origem à obra "Liberalismo - Teoria e Prática" (São Paulo: IBRASA, 1963).
Não sou liberal. Sou conservador. Contudo, pela leitura do livro de Greene - ainda não o concluí -, percebo que aquilo a que autor chama de "liberalismo" é mais o "conservadorismo". 
O liberalismo, como sabemos, comporta uma absolutização da liberdade chegando à irresponsabilidade moral; foi condenado pelo Papa Leão XIII na Encíclica Libertas Praestantissimum
O conservadorismo, contudo, não é propriamente uma ideologia e sim uma atitude contra-revolucionária, cujo anseio é ver as coisas caminharem ordenadamente segundo os seus fins e mediante a conservação daquilo que é bom e válido - as tradições. Não há como explicar conservadorismo numa introdução a um artigo. Quem quiser entendê-lo leia "Dez Princípios Conservadores", do pensador americano Russell Kirk.
Apesar de intitular seu livro pelo nome do "Liberalismo", Theodore Meyer Greene defende, pelo que percebo, o conservadorismo. O autor acredita que o termo "liberalismo" foi deturpado por ter se tornado um chavão, uma palavra de uso corrente; seu objetivo é, pois, restaurar-lhe o verdadeiro significado:
"[Liberalismo] É demasiado chavão devido a seu muito uso e descuidado emprêgo [...] Os têrmos 'liberalismo' e 'liberal' adquiriram realmente várias associações e significados desnorteantes que precisam, primeiramente, de um modo ou de outro, ser eliminados se deverem servir a nossos fins" (p.24-25).
Entretanto, nesta sua tentativa por "eliminar os significados desnorteantes" do termo "liberalismo", o autor termina se afastando do que realmente é o liberalismo - a definição está na Encíclica Libertas - e se aproxima do sadio conservadorismo. O que Greene, em seu livro, chama de "liberalismo" parece ser, na verdade, conservadorismo. No desejo de contrariar o chavão dominante, Greene chega à defesa da atitude correta:  a atitude conservadora e contra-revolucionária.
O próprio autor reconhece, logo às primeiras páginas, talvez sem intenção, que fez esta confusão entre liberalismo e conservadorismo:
"Por que, hoje em dia, se tornou suspeito o 'liberal', isto é, o amante da liberdade? Por que o 'liberalismo', que para nós devia ser sinônimo de saido conservadorismo americano, passou a ser termo de condenação e injúria?" (p.10).
Greene admite, então, que "liberalismo" para si é "sinônimo de sadio consaervadorismo".
A origem da confusão está na indagação anterior: "Por que, hoje em dia, se tornou suspeito o 'liberal', isto é, o amante da liberdade?". Theodore Meyer Greene identifica o "liberal" como "o amante da liberdade"; "liberalismo" seria "amor à liberdade".
A identificação não procede. O conservador também é um "amante da liberdade" e o conservadorismo é, também ele, um "amor pela liberdade" - até a morte, se preciso for. Mas o que diferencia este "amor pela liberdade" do conservador e do liberal é uma coisa: responsabilidade.
O "liberal" apregoa uma liberdade irresponsável: a liberdade pela liberdade, só a liberdade, para tudo, para o que quer que seja. O "liberal" é o tipo de "amante da liberdade" que a quer sem compromisso: não é capaz de fazer com ela um pacto de amor, um matrimônio; é uma relação irresponsável, "à todo custo". O "liberalismo" é o adultério da liberdade e o "liberal" o seu "Ricardão".
Isto não acontece com o conservador. O conservadorismo quer um matrimônio com a liberdade. Quer respeitá-la em seus limites, em suas fronteiras. Não quer abusá-la, explorá-la, estuprá-la. O conservador sabe que a liberdade precisa ser tratada com carinho, devoção, paixão conjugal. Por isso a respeita: seu amor é um amor responsável e sério, sóbrio, equilibrado, matrimonial.
O livro de Theodore M. Greene, pelo que percebo até este momento da leitura, mereceria mais o título de "Conservadorismo" do que "Liberalismo". Guardadas as necessárias ressalvas - especialmente quanto aos termos, como tratamos aqui -, é um livro indicado para estudo de qualquer conservador.

7 comentários:

  1. Muito precisa a sua distinção entre liberalismo e conservadorismo Taiguara. Gostei muito desse artigo. O conservador é um amante da liberdade, mas sabe que liberdade só é liberdade quando a ação do sujeito está orientada para o bem. Ou seja, quando o sujeito ao invés de absolutizar sua liberdade em detrimento da dos outros, ama tando a sua liberdade que reconhece e ama a liberdade das outras pessoas.
    Parabens pelo blog!

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  2. Obrigado, caro amigo Rodrigo!
    Continue lendo o En Garde!

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  3. A questão é um pouco mais complicada.

    No conservadorismo anglo-saxão, há uma aposta quase irrestrita no livre-mercado e uma desconfiança na atuação do Estado. Para conservadores de talhe anglo-saxão, quanto menos Estado, melhor. Intervenção da Igreja, então, nem pensar!

    Por outro lado, no conservadorismo tradicional, de corte europeu, há um desdém pelo capitalismo, uma desconfiança dos EUA e um certo apego ao Estado. Para conservadores tradicionais, não só o Estado, mas também a Igreja, têm o direito de imiscuir-se na vida privada das pessoas.

    Para um conservador norte-americano, mesmo um católico, a idéia do Estado proibir o divórcio é simplesmente absurda pois esse é um assunto privado em que o Estado não deve meter-se. Para um conservador católico europeu, contudo, a proibição civil ao divórcio é lícita e saudável.

    Por isso, para os conservadores tradicionais, os conservadores anglo-saxões (comumente chamados "tories") são um tanto liberais demais.

    O conservadorismo tradicional ainda é comum em alguns círculos católicos europeus, tipo SSSPX, mas já não tem qualquer relevância política na prática.

    O conservadorismo anglo-saxão, por outro lado, é uma força formidável não só nos seus países de origem mas também no Brasil e mesmo na Europa.

    No Brasil, existem as duas correntes.

    Os conservadores anglo-saxões são representados por gente como Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo. Os conservadores tradicionais, muito menos influentes, podem ser vistos nos blogues Contra-Impugnantes e Permanência, entre outros.

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  4. Perfeito comentário, Anônimo.

    Obrigado.

    Mas perceba que a intenção do texto não era diferenciar as correntes do conservadorismo, e sim apenas distingui-lo genericamente do liberalismo.

    Meu cordial abraço!

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  5. Mais aí é que está o problema.

    Esta distinção entre conservadorismo e liberalismo é impossível no nível que você tentou.

    Nos "tories", há uma sobreposição de liberalismo e conservadorismo. Não é uma questão de nomenclatura. É uma questão de fundamentação filosófica sobre a relação ideal entre Igreja-Estado-Indivíduo.

    Nesse momento estou olhando a lista de links do seu site.

    Mises, Maritain, Lord Acton e Olavo de Carvalho são ao mesmo tempo conservadores e liberais, pois nenhum deles sonha com a presença forte do Estado e da Igreja na sociedade, ao contrário de Gustavo Corção, Plínio Corrêa de Oliveira e Chesterton, esses três últimos sim conservadores e anti-liberais.

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  6. Esqueci-me de retribuir-lhe seu cordial abraço e de dar-lhe os parabéns pelo excelente blog, do qual sou leitor constante, embora esta seja a primeira vez que tenha arriscado um comentário. Aproveito também para parabeniza-lo pelo seu livro do Vaticano II que comprei e já li.

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  7. Caríssimo Anônimo,

    Creio que a distinção primária entre conservadorismo e liberalismo no nível traçado - isto é, na perspectiva do significado da liberdade - é, sim, possível.

    Veja o caso do católico. O católico deve prezar a liberdade e amá-la. Leão XIII o ensina em sua Encíclica sobre o Liberalismo, que indiquei no artigo. "A liberdade", ensina o Papa, "é patrimônio exclusivo dos seres dotados de inteligência ou razão" e "é a Igreja a defensora mais firme da liberdade". A propósito, o economista da Escola Austríaca Murray Rothbard dizia que um dos grandes erros dos liberais dos séculos XVIII e XIX foi ter rejeitado a Igreja, uma grande aliada na defesa da liberdade.

    Mas o católico - que é de uma atitude conservadora - possui uma concepção de liberdade distinta da do liberalismo, dado que o católico não interpreta a liberdade como um meio para seguir impulsos irrestritamente no âmbito moral, religioso, etc. O liberal não tem a mesma idéia: a liberdade vale por si própria.

    É uma distinção primária, que considero bastante válida, no tocante à diferença entre o conservador - no caso exemplificado, o conservador católico, entre os quais me incluo - e o liberal.

    O conservador é também um amante da liberdade, mas a ama da maneira correta, respeitando-lhe os limites e freiando seus impulsos pela responsabilidade e moralidade. Assim não age o liberal. O plano de distinção deste artigo entre um e outro é apenas este, sem tocar na questão do Estado ou da Igreja na sociedade, mas apenas no significado da liberdade para um ou outro.

    Espero ter me feito entender.

    Agradeço-lhe imensamente pelas felicitações sobre o Blog e o livro. Muito grato!

    Meu cordial abraço, outra vez! Fica com Deus!

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