quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"O veneno da Prostituta apocalíptica" ou "Por que o comunismo seduz, apesar de tudo?"

"Se somamos o número total de vítimas do comunismo neste século, vemos que é superior ao número de mortes de duas guerras mundiais, somado ao número de vitimas de todas as ditaduras de direita, mais o número total de vitimas de terremotos, enfartes e epidemias variadas. Isto não é força de expressão: é um simples fato, medido matematicamente. Ou seja, o comunismo foi o pior flagelo conhecido pela humanidade desde o dilúvio universal. Não há outro termo de comparação. A peste negra, proporcionalmente, foi menos grave do que o comunismo" (Olavo de Carvalho, Reparando uma injustiça pessoal).
Por que, então, o comunismo seduz, apesar de tudo isso?
Creio ser possível arranhar a resposta a esta questão - ampla e muito difícil de ser respondida (é quase ilógico pensar que uma coisa tão macabra possa atrair...) - a partir de Theodore M. Greene.
Em sua obra "Liberalismo - Teoria e Prática" (São Paulo: IBRASA, 1963) - sobre a qual escrevi dia destes neste Blog -, o Prof. Greene afirma que o comunismo só conseguiu seduzir da maneira como seduziu - e apesar de "recorrer, impiedosamente, à arregimentação, ao encarceramento, às torturas e às liquidações, para manter dominadas as massas" - por "ter dirigido seu apêlo a certas necessidades básicas do homem" (p.16). Explorando estas necessidades básicas e primevas, procurando satisfazê-las de sua maneira [distorcida]. o comunismo consegue seduzir as mentes e criar nelas uma paixão irracional pela vermelhidão. Não esqueçamos, obviamente, a imbecilização do homem, a Psicopolítica e outros métodos denunciados por George Orwell, de extrema utilidade para a dominação dos homens pelo comunismo.
A primeira destas necessidade é a justiça. Todo homem tem necessidade ser tratado com justiça, de que lhe seja dado o que é seu - pois isto é o mínimo devido à sua dignidade de homem. O comunismo utilizou-se desta necessidade por justiça para seduzir: segundo Greene, "o credo original dos comunistas exprimiu, de fato, a seu modo deturpado, certa paixão pela justiça e pelo bem-estar do homem" (p.16). Mas que justiça? Que bem-estar? 
A justiça do comunismo não é "dar a cada um o que é seu". O comunismo se baseia sobre uma falsa sociologia, a sociologia da luta de classes. Isso é transferido para sua noção de justiça e bem-estar: justiça  comunista lutar contra o "rico explorador" e elevar as "massas proletárias"; bem-estar é derrubar o "capitalista explorador" e dar o poder ao "trabalhador marginalizado" - ainda que isso só signifique uma coisa: uma casta de privilegiados, o Partido. A justiça dos comunistas é a justiça da luta de classes: o lado revolucionário vencendo a luta; isso é o justo.
"Tornou-se o toque de reunir para apoiar muitos (o rpoletariado) e opor-se a poucos (os exploradores de muitos), para apoiar a igualdade social e opor-se aos preconceitos. [...] Isso explica, em parte, o aparente êxito de muita coisa da propaganda comunista contra o que ela chama de exploração das massas pelos 'capitalistas'" (pp.16-17).
Utilizando-se do discurso da justiça - necessidade de todo homem - o comunismo seduz para algo que não é a justiça: está é "dar a cada um o que é seu" e não a luta de classes marxista. Mas a modificação o significado real das palavras e dos conceitos é essencial à doutrinação marxista. Apesar de, como afirma Greene, "[o comunismo] repudiar a justiça objetiva e confiar cinicamente na força arbitrária"; há, em verdade, esta inversão nos Estados comunistas: não há a justiça objetiva, a justiça que dá a cada um o que é seu, independentemente de quem seja; há, ao contrário, uma confiança cínica na força do Estado, que é elevado ao patamar de um deus todo-poderoso e com soluções mágicas para todos os conflitos; então, não se dá mais a cada um o que é seu: o Estado dá a quem ele quiser o que é dele, do Estado.
A segunda necessidade a que o comunismo visa responder para seduzir ao homem é a de uma fé comum. Nas palavras do Prof. Greene:
"Em seu próprio método implacável, o comunismo procura satisfazer uma necessidade profunda do homem, qual a de pertencer a uma comunidade coesa, guiada por uma fé comum. O homem não foi criado para viver na solidão ou isolado. Se o deixarem demasiadamente entregue a seus próprios expedientes, demasiadamente independente dos laços e obrigações sociais, tornar-se-á um perdido, um infeliz, uma criatura ineficaz. Êle é uma criatura essencialmente sociável que anseia por laços estreitos com seus companheiros. Acha-se também, naturalmente, inclinado mais a crer que a duvidar, a sustentar fortes crenças afirmativas e a crer com mais calor do que com certa hesitação. Sente-se mais feliz quando pode orientar suas ações para objetivos positivos, de cujo valor não duvida, especialmente quando outros alimentam êsses mesmos objetivos tão incondicionalmente quanto êle. Eme sue modo violento e desnorteante, o comunismo oferece a seus partidários tal comunidade fortemente unida, dedicada a um objetivo comum e empenhada num programa de ação também comum. Isso, em si mesmo, deve empolgar poderosamente aquêles que preferem ligar-se a qualquer comunidade organizada e unida, embora tirânica, a levar uma vida errante e solitária; deve empolgar aquêles que anseiam por crenças positivas que possam compartilhar com outros, ao invés de uma situação de descrença e ceticismo cínico, aquêles que exigem um programa social prositivo, embora impiedoso e perigoso, capaz de dirigir sua própria conduta diária mesmo de maneira desagradável, ao invés da 'liberdade' do caos social e da irresolução pessoal. Nisso também, por paradoxal que possa parecer, a fôrça do comunismo jaz em sua resposta positiva a uma necessidade positiva do homem" (p.17).
A sociedade atual é uma sociedade relativista: cada um tem "a sua verdade", não há A Verdade. Há até quem não tenha verdade alguma; há até quem diga que tudo é irreal. Mas o homem tem sede de Verdade, o homem busca, por si mesmo, a Verdade. Se não a encontra, busca consolo em "verdades" aparentes, ilusórias: nas mentiras, nos prazeres, na burrice aceita voluntariamente.
Numa sociedade relativista, onde a "intolerância dos tolerantes" reprime a Verdade e quer manter o homem o mais que puder longe dela, um credo mais fechado e violento, como o do comunismo, encontra aceitação tácita da parte de muitos. É por causa do ambiente relativista em que nos encontramos que o comunismo, apesar de se basear no cerceamento do pensamento, em falsos princípios e de constituir-se uma "anti-filosofia", segundo Eric Voegelin, apesar disso é neste ambiente que o comunismo encontra aceitação tácita e fanática, tornando-se até a razão de viver para muitos: o comunismo mata, tortura, degrada o ser humano... e se torna a razão de viver para tantos! Porque responde à necessidade de um credo coeso e [aparentemente] sólido, numa sociedade onde tudo é relativizado, onde tudo parece etéreo e mero modismo. Se não há a Verdade, o homem se refugia nas falsas "verdades", das quais o comunismo é apenas uma.
Para fins exemplificativos, coisa análoga vem acontecendo na Europa com o islamismo. A sociedade européia caiu num relativismo banal e irresponsável, que chega ao cúmulo de tentar reescrever a sua própria história, negando suas tradições e suas raízes cristãs, como se por 1700 anos ela não tivesse sio cristã, apesar do testemunho eloqüente de suas catedrais! Negando suas raízes cristãs e caindo no relativismo, a Europa se vê diante do que eles chamam de "problema islâmico": os maometanos cada vez mais encontram espaço para suas idéias e reinvidicações. Assustam-se os europeus. Mas o que poderão fazer? Se negam suas raízes cristãs, não poderão resistir a uma doutrina firme como a do Islã; se negam suas tradições e caem no relativismo, não poderão resistir a uma cultura que nada relativiza como a cultura de Maomé, onde o peso das tradições e da fé é muito forte. Não adianta assustar-se com "o problema islâmico": os europeus escolheram esse caminho ao negar suas raízes e escolherem o relativismo. Uma cultura relativista não pode resistir a uma cultura forte como a islâmica.
Há uma terceira necessidade a que o comunismo tenta responder para seduzir o homem: o heroísmo.
O homem, decaído pelo pecado original, perdendo os dons preter-naturais que Deus lhe concedera misericordiosamente, sente a necessidade de elevar sua dignidade a um estágio aproximado ao anterior à Queda. O único modo de fazê-lo é aquele que nos dá o Cristo: a aceitação da Vontade Divina, o amor irrestrito a Deus, a busca da santidade. A santificação é o heroísmo em plenitude, de que o homem sente necessidade; porque o homem só encontra seu fim verdadeiro em Deus, de Quem viemos e para Quem vamos.
Mas o comunismo - que também utiliza-se desta necessidade intrínseca do homem pelo heroísmo para propagar-se -, rejeitando a Deus, rejeita, conseqüentemente, o único heroísmo que poderia satisfazer o homem plenamente: o encontro com o Bom, o Belo e o Verdadeiro. O marxismo cultural chega ao cúmulo de promover propagandísticamente a imoralidade e a ignorância como uma maneira de controlar o homem.
O que o comunismo faz para propagar-se com base no desejo humano de heroísmo e auto-superação é a exigência de auto-sacrifícios pelo Partido, pelo Manifesto - os quais, talvez, depois lhe elevem a cargos mais altos na grande máquina burocrática comunista.
"O comunismo dispõe ainda de uma terceira seta espiritual em sua aljava. A despeito de o homem preferir, naturalmente, segurança e confôrto a perigos e sacrifícios, há, também, um aspecto da natureza humana que acolhe prazerosamente a exigêncio de um auto-sacrifício. Esperamos um desafio, claro e incondicional, para identificar-nos com um grupo ativo que apóia uma causa vital. Uma causa deve parecer digna de nossa lealdade para poder desafiar-nos, mas o impulso para  sermos leais é, muitas vêzes, mais forte que nosso impulso para examinar detidamente os méritos da própria causa. Desejamos que o desafio seja tão irresistível que possamos inquestionàvelmente responder a êle, uma causa tão vital que nos tornemos cônscios de estarmos identificados com ela. Poderemos então vangloriar-nos verdadeiramente  do sacrifício exigido, porquanto a própria dor dêsse sacrifício parece garantir o valor da causa que o exige, e justificar a lealdade que desperta em nós. Isso também explica a poderosa fascinação do comunismo como causa. Muitos membros do partido devem indagar a si mesmos se o objetivo do comunismo justifica realmente os métodos brutais que êle emprega, mas o desafio é tão destituído de ambigüidade, as ordens tão claras (a qualquer tempo dado) e os sacrifícios pessoais exigidos tão grandes que, no fim, o objetivo parece indubitável" (pp.17-18).
"São êsses alguns dos poderosos recursos espirituais do comunismo a que procuramos resistir e contra os quais procruamos concorrer em tôdas as partes do mundo" (p.18), conclui Theodore M. Greene. Estas são, pois, segundo o Professor, as seduções do comunismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário