segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sensaborias universitárias

Ó, nublada segunda que me tirastes da cama! Poucas coisas existem mais prazerosas que dormir enrolado ao lençol em dia frio no inverno campinense. E poucas coisas existem tão terríveis quanto sair deste estado para ir à UEPB.

Mas hoje, felix culpa! (não, não falo de nenhum professor; é a expressão latina). Chego à universidade e logo recebo a notícia de que não haverá aula. Êxtase nirvânico perpassa-me o estômago; endorfina corre veloz com o sangue e me põe naquele estado etéreo que talvez Epicuro almejasse (digo “talvez” – e bastante “talvez” –, porque a coisa com Epicuro é problemática e mais facilmente obtida com LSD...).

Poderei voltar para casa, desfrutar do ócio contemplativo perante Rachmaninoff.

Alguns amigos estranham esta minha aversão à faculdade. Se não há chamada, não estou em aula. Se há chamada, raramente estou mais que de corpo presente em sala, enquanto a mente desfruta de alguma leitura filosófica de maior calibre. E não é tão difícil ler qualquer coisa de maior calibre que as sensaborias discutidas hoje em qualquer universidade pública brasileira...

Não, meus caros. Não tenho aversão à faculdade: ela que tem aversão a mim. Eu tentei, juro que tentei. Eu quis fazer um chamego, eu quis cortejá-la e conquistar seu coração. Mas não, não. Ela é grandiosa demais para mim. Suas palavras tão etéreas, angelicais, de como mudar o mundo, de como construir uma nova sociedade sem miséria e sem a Globo, são distantes demais para mim, que, desterrado neste vale de lágrimas, tento compreender as lágrimas, ciente de que ainda não estou no jardim das virgens prometido por Maomé (e espero não estar nunca).

A faculdade tem aversão a mim, não é compatível comigo. Não me quer em suas aulas. Mamãe me ensinou ser bom cavalheiro e almejando ostentar esta virtude quixotesca, acatarei o desejo da universidade: estarei em casa sempre que puder.

Ouço os gritos altos de toda a gente bonita a expulsar-me. Nobres senhores da dinastia universalesca, o fato é que já saí. Não estou aqui senão como uma sombra, um ectoplasma. Eu, perante a faculdade, perante o establishment universitário, não existo, não quero nada mais que ser ignorado: não estou em suas aulas, não discuto seus assuntos, estou nas trevas da ignorância universalesca. Sequer desejo ser notado.

Mas não tenho a virtude de ser um radical epicurista (leiam “O Jardim das Aflições”, de Olavo de Carvalho), não posso fugir para o jardim das delícias e Maomé não vai me dar suas 72 virgens (eu não as quero, Mohammed: não vos preocupeis!). E por isso mesmo – por eu ter este maldito defeito de calejar sempre os pés no chão – meu aristocrático estômago põe diante de mim, como evidência apodíctica, duas necessidades: comida e, por tabela, diploma.

Sim, faculdade, eu sei que não me queres, eu sei que não toleras o Aristóteles que eu carrego no celular. Ignorai-me e dá-me apenas o papelzinho mágico, aquele do mundo de Oz, que abre todas as portas, e não me importarei que entre nós tenha havido uma relação de descomunal distância. Nobres bancas universalescas, só quero meu diploma. Não vos preocupeis comigo, não vos preocupeis em criar alguma compatibilidade. Deixai-me e saberei viver.

Vós tendes muito mais com o que vos preocupardes: a Globo, a memória e a verdade, o Movimento Gay, o perigo conservador...

Eu sou só um pobre leitor de Aristóteles, que tem a inocente esperança de um dia chegar a compreendê-lo um pouco.

Sim, pois fugir da universidade é estar no mundo. E já vos disse, não sou epicúreo: fujo da universidade, mas não do mundo. Eu só quero meu diploma. Ah, se eu tivesse sido sindicalista analfabeto do ABC e me gabasse de não ler livro algum... Hoje eu teria tantos doutorados honoris causa!

Mas cometi o pecado de estudar: não serei Presidente e estou fora do seleto grupo dos que recebem doutorados fast food. Não, eu não sinto a mínima por isso. E minha pertinácia no erro é tanto que hoje ainda insisto em estudar, apesar da universidade. Maldito plebeu!

4 comentários:

  1. Deixa eu adivinhar: você cursa Humanas =)
    Imagino como se sente...
    Abraços!

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  2. Interessante reflexão, Taiguara! Que a Divina Providência scuite novamente angélicos e seráficos doutores nas universidades!
    Mas tenha fé! Em algumas áreas o pedantismo esquerdista está decaindo e a busca pela Verdade está ressurgindo! =)

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  3. Que os anjos te digam amém, meu amigo. Concordo contigo: há u movimento neste sentido. Mas, pelo que vejo, até agora este movimento é apenas paralelo, fora do establishment universitário, onde goza de mais liberdade e por isso eu crescimento é exponencial. Abçs!

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